terça-feira, 20 de outubro de 2026

SER E PARECER.

 

SER E PARECER



Por: Marcos Inácio Fernandes*

"A mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta”.

Caio Júlio César (100–44 a.C.)

Contexto histórico:

Caio Júlio César, futuro ditador de Roma, na época do episódio era pretor (magistrado) e já havia sido eleito Pontífice Máximo (autoridade religiosa máxima de Roma).  Pompeia, era sua segunda esposa, com quem se casou por volta de 67 a.C.

O episódio em que a frase foi cunhada, ocorreu na festa da Bona Dea ("Boa Deusa"), um ritual religioso de Estado, realizado anualmente no início de dezembro, na casa de um magistrado romano, geralmente o cônsul ou o pretor. Apenas mulheres participavam desse ritual. O magistrado e todos os homens da casa eram obrigados a sair; até estátuas ou representações masculinas eram cobertas com véus.

A deusa era associada à fertilidade e à modéstia feminina. Seus ritos eram secretos, noturnos, com música, dança e sacrifícios. A exclusão dos homens era absoluta e sagrada — a presença de um homem era uma profanação (chamada de incestum).

Então aconteceu a “profonação” da festa por Públio Clódio Pulcro, um patrício jovem, entrou disfarçado de mulher (como harpista) — supostamente para se encontrar com Pompeia. Foi descoberto, e o escândalo explodiu.

De imediato, César divorciou-se de Pompeia. Quando questionado, mesmo sem provas de que ela tivesse cometido adultério, respondeu que "a mulher de César não deve estar nem sob suspeita". Ele não a acusou de adultério; o problema era a aparência de impropriedade, incompatível com o cargo de Pontífice Máximo que ele ocupava.

A conexão com a lógica de César

 Na política contemporânea não basta ser inocente; é preciso parecer inocente aos olhos do público. É impressionante constatar, como detentores de cargos públicos, nos três poderes, enriquecem e não conseguem explicar seus crescimentos patrimoniais.

A frase "a mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta" aplica-se com precisão ao episódio recente: a exigência de abertura de sigilos bancários e telefônicos por Lula e Flávio Bolsonaro não é sobre culpa jurídica, mas sobre a "aparência" de idoneidade que ambos precisam dizer ao eleitorado na reta final do segundo turno.

César repudiou Pompeia não porque acreditava em sua traição, mas porque o cargo de Pontífice Máximo exigia que sua casa estivesse acima de qualquer suspeita. A dúvida, por si só, era intolerável.

No episódio atual, a lógica se repete. Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir sigilos durante o debate da Band em 18 de outubro, propondo que ambos entregassem os dados à Justiça Eleitoral antes da votação. A justificativa explícita foi: "para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país”. Ou seja, não se trata das duas investigações criminais em curso contra Flávio que motivou a exigência, mas da suspeita pública que paira sobre o patrimônio do senador — a compra de um imóvel de alto valor, por exemplo — e que Lula quer ver esclarecida antes do voto.

No dia de hoje, Lula vai protocolar junto ao TSE, sua procuração e de familiares, autorizando seu sigilo bancário e telefônico. Vamos acompanhar se Flávio Bolsonaro fará o mesmo. Continuando o nosso passeio histórico, lembro Tancredo Neves que disse: “ninguém vai ao Rubicão para tomar banho”. Lula atravessou o Rubicão. Encerro com outra frase de César: “Alea jacta est” – “A sorte está lançada”. Venceremos!!

 

Rio Branco (AC), 20 de outubro de 2026

 

*Marcos Inácio Fernandes (Marcão). 78 anos, professor aposentado e militante do PT

 

 

 

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