SER E
PARECER
Por: Marcos Inácio Fernandes*
"A mulher de César
não basta ser honesta, precisa parecer honesta”.
Caio Júlio César (100–44
a.C.)
Contexto histórico:
Caio Júlio César, futuro ditador
de Roma, na época do episódio era pretor (magistrado) e já havia sido eleito
Pontífice Máximo (autoridade religiosa máxima de Roma). Pompeia, era sua segunda esposa, com quem se
casou por volta de 67 a.C.
O episódio em que a frase foi
cunhada, ocorreu na festa da Bona Dea ("Boa Deusa"), um ritual
religioso de Estado, realizado anualmente no início de dezembro, na casa de um
magistrado romano, geralmente o cônsul ou o pretor. Apenas mulheres
participavam desse ritual. O magistrado e todos os homens da casa eram
obrigados a sair; até estátuas ou representações masculinas eram cobertas com
véus.
A deusa era associada à
fertilidade e à modéstia feminina. Seus ritos eram secretos, noturnos, com
música, dança e sacrifícios. A exclusão dos homens era absoluta e sagrada — a
presença de um homem era uma profanação (chamada de incestum).
Então aconteceu a “profonação” da
festa por Públio Clódio Pulcro, um patrício jovem, entrou disfarçado de mulher
(como harpista) — supostamente para se encontrar com Pompeia. Foi descoberto, e
o escândalo explodiu.
De imediato, César divorciou-se
de Pompeia. Quando questionado, mesmo sem provas de que ela tivesse cometido
adultério, respondeu que "a mulher de César não deve estar nem sob
suspeita". Ele não a acusou de adultério; o problema era a aparência
de impropriedade, incompatível com o cargo de Pontífice Máximo que ele ocupava.
A conexão com a lógica de César
Na política contemporânea não basta ser
inocente; é preciso parecer inocente aos olhos do público. É impressionante
constatar, como detentores de cargos públicos, nos três poderes, enriquecem e
não conseguem explicar seus crescimentos patrimoniais.
A frase "a mulher de César
não basta ser honesta, precisa parecer honesta" aplica-se com precisão ao
episódio recente: a exigência de abertura de sigilos bancários e telefônicos
por Lula e Flávio Bolsonaro não é sobre culpa jurídica, mas sobre a
"aparência" de idoneidade que ambos precisam dizer ao eleitorado na
reta final do segundo turno.
César repudiou Pompeia não porque acreditava em sua traição,
mas porque o cargo de Pontífice Máximo exigia que sua casa estivesse
acima de qualquer suspeita. A dúvida, por si só, era intolerável.
No episódio atual, a lógica se
repete. Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir sigilos durante o debate da Band
em 18 de outubro, propondo que ambos entregassem os dados à Justiça Eleitoral
antes da votação. A justificativa explícita foi: "para que o povo
brasileiro saiba quem é ladrão nesse país”. Ou seja, não se trata das duas
investigações criminais em curso contra Flávio que motivou a exigência, mas da suspeita
pública que paira sobre o patrimônio do senador — a compra de um imóvel de
alto valor, por exemplo — e que Lula quer ver esclarecida antes do voto.
No dia de hoje, Lula vai
protocolar junto ao TSE, sua procuração e de familiares, autorizando seu sigilo
bancário e telefônico. Vamos acompanhar se Flávio Bolsonaro fará o mesmo.
Continuando o nosso passeio histórico, lembro Tancredo Neves que disse: “ninguém
vai ao Rubicão para tomar banho”. Lula atravessou o Rubicão. Encerro com outra
frase de César: “Alea jacta est” – “A sorte está lançada”. Venceremos!!
Rio Branco (AC), 20 de outubro de
2026
*Marcos Inácio Fernandes
(Marcão). 78 anos, professor aposentado e militante do PT
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