sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O NORDESTE REVIVE STALINGRADO

  

O NORDESTE REVIVE STALINGRADO

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Por Marcos Inácio Fernandes*

“Os longos soluços
Dos violinos
Do outono
Ferem meu peito
Com um langor
Monótono.”

Paul Verlaine, Canção de outono (1866) (1)

Houve um tempo em que a Europa inteira pareceu ajoelhada.

As botas passaram sobre a Polônia como quem pisa em relva. A Áustria foi engolida sem um grito, e Paris, a cidade-luz, apagou-se. A noite descia sobre os homens, e muitos acreditaram que seria eterna.

Foi então que a ambição de um só homem o levou até o Cáucaso, atrás do petróleo, e o fez tropeçar numa cidade às margens do Volga. Stalingrado. Ali o inverno era de ferro e a fome tinha rosto, e ainda assim um povo inteiro, de pé entre os escombros, disse ao invasor que dali ele não passaria. Lutou-se rua por rua, casa por casa, janela por janela. As ruínas foram trincheiras, e o frio foi aliado.

E nos seus boletins diários da guerra a BBC terminava dizendo: Stalingrado não caiu!!

Stalingrado resistiu, e a resistência custou mais de vinte milhões de vidas soviéticas ao longo da guerra: vinte milhões de mesas com uma cadeira vazia, de berços sem canto e de cartas que nunca chegaram. É de tanta dor que se faz um amanhã.

Depois, em plena primavera de 1944, na véspera do desembarque que libertaria a França, a rádio BBC de Londres leu ao ar, devagar, versos de outono. Um poema triste, cheio de violinos, foi a senha da liberdade. Os soluços do poeta anunciaram a aurora e cantaram a vida por vir. Pouco depois, o Exército Vermelho foi o primeiro a hastear sua bandeira em Berlim, e a noite acabou.

Conto tudo isso porque a sombra voltou. Os herdeiros tupiniquins daqueles velhos valores, o ódio que se faz norma, a mentira que se faz método, o desprezo pelos pobres feito discurso, ainda rondam o mundo e, aqui, venceram até agora. Quem ama este país conhece esse frio por dentro.

Mas, nestas eleições, o Nordeste ergueu-se.

O Nordeste foi a nossa Stalingrado. Aquela terra de sertão e de mar, de gente de pele curtida pelo sol e de alma curtida pela espera, não se dobrou. Resistiu às falanges com a teimosia dos que já aprenderam a fazer festa da seca e flor do chão rachado. Foi uma resistência bonita e será decisiva, porque anuncia a vitória que sonhamos: a da democracia, da civilização e do humanismo.

Há cansaço, é verdade. Há medo e há lágrimas. Mas o outono é só uma estação, e quem sabe de violinos sabe que nenhum soluço dura para sempre.

A nossa Canção de outono já tem poeta: é o nosso Chico, que ensinou um país inteiro a cantar, mesmo sob a mordaça, que “amanhã vai ser outro dia”. E se o coração fraquejar, lembremos o que Churchill teria dito numa fria madrugada de 1940: "Durmam a fim de recobrar forças para o amanhã, pois o amanhã virá. E brilhará claro e limpo sobre os bravos, os honestos, os de coração sereno, brilhará sobre todos que sofrem por esta causa e, mais gloriosamente, sobre a campa dos heróis. Assim será a nossa alvorada."

Que seja. O Nordeste resistiu, e a alvorada virá.

 

Rio Branco (AC), 08 de outubro (O Che vive) de 2026.

 

*Marcos Inácio Fernandes, 78 anos, é professor aposentado e militante do PT.

(1)    - Canção de outono

Paul Verlaine

“Os longos soluços
Dos violinos
Do outono
Ferem meu peito
Com um langor
Monótono.

Todo sufocado
E pálido, quando
Soa a hora,
Lembro-me dos dias
De antigamente
E choro;

E vou-me embora
Ao vento mau
Que me leva
De cá pra lá,
Igual à
Folha morta.”

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Comentários:

José Ferreira (Funil)

Marcão, parabéns pelo belo texto. Uma analogia perfeita. O nosso Nordeste será realmente a “Stalingrado” nesse momento decisivo para a nossa nação. Que a “Democracia” prevaleça sobre a barbarie, e nós possamos acordar com a vitória, soberania e com a liberdade estampado em nossos rostos. Vamos a VITÓRIA

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

AS URNAS FALARAM!!

 

AS URNAS FALARAM!


Por: Marcos Inácio Fernandes*

 “A Constituição de Atenas, berço da democracia), não permitia que um cidadão permanecesse neutro e punia com a perda da cidadania aqueles que não quisessem tomar partido em disputas faccionárias” (ARENDT; 1983;23).

“Na Roma antiga, quem concorresse a um cargo público costumava vestir uma toga branca salpicada de cal. A ideia era indicar que não havia manchas em sua reputação. Aquele que vestia a toga era chamado de “candidatus”, formado a partir do verbo “candere” que significa brilhar de tão branco.” (FERNANDES; 2026; 32)

As urnas falaram e disseram, alto e bom som, que a barbárie venceu o primeiro round. Saíram na frente para presidente, fizeram maioria dos governadores, e maioria na Câmara e no Senado Federal. Reconhecendo e acatando o resultado soberano das urnas, passo as minhas considerações do que me pareceu mais relevante nesse processo eleitoral.

1º - Considero que esse resultado, onde a direita e os golpistas saíram na frente, seja suficiente para enterrar, definitivamente, os ataques para desacreditar as urnas eletrônicas;

2º - Fechadas as urnas quem ficou em 3º lugar foram as abstenções. 33.435.235 cidadãos aptos ao exercício do voto, não foram exercer o seu direito. Esse número, supera, com sobras, o somatório dos 10 candidatos (excluídos os 2 primeiros colocados), que disputaram a presidência. Se a Lei ateniense vigorasse no Brasil, esses milhões de eleitores perderiam sua cidadania. Agora cabe a Justiça Eleitoral uma campanha para a importância do voto e a cidadania consciente se mobilizar para convencer, parte desse eleitorado, para comparecerem as urnas em 25/10 e votarem por um Brasil soberano em Lula. Lembrando que nem sempre quem sai na frente chaga na frente (A Fórmula 1 que o diga);

3ºº - A segunda coisa a observar, é que o eleitor brasileiro, desde Ademar de Barros (“Do rouba mas faz”) é condescendente com a corrupção e o roubo. Não se incomodam em votar em quem “tem manchas na sua reputação”. E como o Flávio Bolsonaro e, tantos outros candidatos, eleitos, do PL, apresentam uma FICHA CORRIDA de fazer inveja a Vorcaro e outros delinquentes de “colarinhos branco” e de outras colorações.

Aqui no Acre, o que serve um pouco de alento, foi a não eleição de Gladson Cameli para o Senado, que as pesquisas apontavam como favorito. Ele concorreu apesar de estar condenado por uma série de crimes pelo STJ. Não conseguiu a IMUNIDADE e espero que não fique IMPUNE para servir de exemplo;

4º - O Nordeste, mais uma vez, foi a barreira de contenção da avalanche bolsonarista;

5º - Ciro Gomes, que as pesquisas apontavam sempre na frente do Elmano vai, mais uma vez, passear em Paris;

6º - Erika Hilton, uma mulher trans, foi reeleita deputada federal, por São Paulo, sendo a mais votada da história do Brasil;

7º - Aqui na próxima legislatura da Assembleia Estadual não terá uma única mulher na sua composição. Será o “Clube do Bolinha” onde mulheres não entrava;

8º - As forças de esquerda da Federação da Esperança (PT – PC do B e PV), só conseguiu eleger o casal Edvaldo e Perpétua (PC do B). Os demais foram na Balsa como manda a nossa tradição do folclore político. Cumpre ressaltar que só se elegeram puxados pela legenda da Federação das excelentes votações do Cesário, Pe. Antônio, Willi, Tiago Mourão, Cléa Serra, Silvânia Oliveira, Melque Alves (Estadual) e Kamai, Márcio Alércio, Neidinha (Federal), entre outros. Parabéns aos valorosos combatentes do PT.

9º - Por fim é lamentar, profundamente, o Acre abdicar de um quadro como Jorge Viana, para representar o Estado no Senado. A profecia do Dr. Ulisses Guimarães se cumpriu mais uma vez. Ele dizia: “quem acha ruim esse Congresso, espere prá ver o próximo”. Já estamos vendo.

10º - Eu como sou um otimista inveterado, creio em milagres, que só a POLÍTICA pode realizar (além das divindades). Já ví um nessa eleição: o candidato Renan Santos, que nunca foi nem candidato a síndico, num partido nanico (Missão) e sem estrutura, ter mais votos do que 2 governadores de Estados importantes como Minas (Zema) e Goiás (Caiado) e por muito pouco não ficou na 3ª colocação.

Fora da política é a barbárie. A solução a médio e longo prazo é investir na politização do povo e fortalecer a cidadania consciente.  Estou disponibilizando uma singela e simples contribuição nesse sentido. Um pequeno livro de 100 páginas intitulado “SENSIBILIZAÇÃO À POLÍTICA”. A pretensão é de que o cidadão compreenda um pouco as principais categorias políticas e possa, pelo menos, transitar do SENSO COMUM para o BOM SENSO na compreensão da sociedade e dos mecanismos de PODER.

Agora, de imediato, é cair em campo no corpo a corpo de “baioneta escalada” para reverter esse placar adverso que as urnas apontaram. Como diz a música: “Não entregar o jogo antes do  2º tempo”. À  luta`!! Como dizia um general Republicano da guerra civil espanhola; “companheiros, estamos cercados, não deixem o inimigo escapar”

 

Rio Branco (AC), 05 de outubro de 2026.

 

*Marcos Inácio Fernandes, 78 anos, professor aposentado e militante veterano do PT.

 

 

 PS – Capa e contracapa do livro.

Luís Celso disse:

ENSAIO MASTER: A LANTERNA DE DIÓGENES E A LINHA DE FOGO — DEMOCRACIA OU BARBÁRIE NA ERA DA APATIA DIGITAL

 O resultado do primeiro turno das Eleições de 2026 colocou o Brasil diante de seu espelho mais cruel, revelando que a fratura que divide o país não se resolve mais por meio da linguagem técnica e sem alma das planilhas econômicas ou dos debates tradicionais de gabinete. Nós não estamos discutindo no Brasil quem é corrupto e quem não é corrupto; nós estamos discutindo marcos civilizatórios. A encruzilhada definitiva que se impõe entre as urnas do segundo turno é, rigorosamente, a escolha consciente entre a Democracia ou a barbárie. No manifesto de balanço publicado de Rio Branco pelo professor e militante veterano Marcos Inácio Fernandes, a evocação da clássica lição de Hannah Arendt sobre a antiga pólis grega serve de soco no estômago para o nosso tempo: a Constituição de Atenas punia com a perda da cidadania aqueles que escolhiam a neutralidade ou a indiferença em momentos de disputas faccionárias. No Brasil contemporâneo, a explosão do abstencionismo — que converteu 33.435.235 cidadãos aptos em ausências voluntárias, consagrando a abstenção como o verdadeiro "terceiro lugar" do pleito — prova que o esvaziamento cívico é a via expressa pela qual a barbárie vence o seu primeiro round.

 Essa deserção em massa expõe uma profunda e alarmante fratura geracional e demográfica. De um lado, as pontas da pirâmide etária — onde o voto é facultativo para menores de 18 anos, analfabetos e idosos acima de 70 anos — registraram índices históricos de evasão. Seis em cada dez eleitores idosos deixaram de comparecer, com destaque para o silêncio das mulheres com ensino fundamental incompleto nas periferias. No entanto, é no contraste de vivências que o abismo se aprofunda. Aqueles que nasceram sob a égide da Constituição de 1988 e cresceram a partir dos anos 1980 encaram a democracia como um dado adquirido e o voto como uma obrigação puramente administrativa, associada a penalidades burocráticas (como restrições para emitir passaportes ou prestar concursos públicos). Esse eleitorado jovem, desconectado da memória viva da ditadura militar (1964-1985) e das lutas das Diretas Já, foi integralmente capturado pelo ambiente digital de cortes rápidos, filtros e bolhas algorítmicas, desenvolvendo uma perigosa tolerância a discursos centralizadores e salvadores da pátria performáticos.

 Em oposição a esse deserto cívico, ergue-se o voto por convicção dos veteranos, sintetizado pela idosa de 81 anos que brada: "Voto porque entendo o peso e o valor desse gesto (...) É um ato de consciência e de responsabilidade para exercer minha cidadania". Para essa geração que enfrentou a noite de terror do arbítrio, o voto não é um gesso burocrático, mas um troféu histórico inalienável. O artigo do professor Marcos Inácio Fernandes desnuda o fato de que a extrema-direita e os setores golpistas, ao saírem na frente para a Presidência e conquistarem a maioria na Câmara, no Senado e nos governos estaduais, ironicamente enterraram de vez os seus próprios discursos fraudulentos destinados a desacreditar as urnas eletrônicas. No entanto, a condescendência histórica do eleitor com o lema do “rouba, mas faz" permitiu que candidatos com fichas corridas extensas fossem consagrados, transformando o Parlamento no "Próximo Congresso" piorado que Ulisses Guimarães previra de forma profética. No Acre, o não comparecimento e o erro coletivo dos institutos de pesquisa resultaram na perda lamentável de um quadro como Jorge Viana para o Senado, deixando a Assembleia Legislativa estadual convertida em um completo "Clube do Bolinha", sem uma única representação feminina em sua composição.

 A resposta urgente para conter o mal maior e barrar a ascensão das milícias ao topo da República — risco existencial explicitado pelo duro editorial do Estadão — exige que abandonemos a ignorância institucionalizada e o comodismo de gabinete. Como ensina a obra “Sensibilização à Política”, o antídoto de longo prazo não vem de propagandas abstratas de televisão, mas sim de um investimento maciço na politização do povo, permitindo que o cidadão transite do senso comum (que reduz a atividade à corrupção e ao xingamento) rumo ao bom senso e ao pensamento crítico. Inspirado na metáfora da lanterna de Diógenes, o livro do amigo Marcão convida o leitor a iluminar o mundo público com discernimento e coragem, resgatando a máxima aristotélica de que o sentido último da política é a organização da cidade feliz.

 Para o segundo turno, o procedimento das forças progressistas deve ser o combate de "baioneta escalada" no corpo a corpo das ruas. O Nordeste consolidou-se mais uma vez como a grande barreira de contenção da avalanche totalitária, e o alento técnico no Acre veio da derrota nas urnas do governador Gladson Cameli ao Senado, provando que nem mesmo o favoritismo das pesquisas protege a impunidade de quem responde por crimes de colarinho branco no STJ. É melhor manter a trincheira de resistência com Lula eleito, mesmo diante de um Parlamento hostil, do que entregar o Palácio do Planalto de porteiras fechadas para que a extrema-direita execute as suas maldades e avance a PEC de desmonte judicial. Sob a luz real da foto oficial do governo federal combatendo o confisco das bets, acionemos os nossos "olhos de lince" e ajamos como sentinelas da soberania nacional. Como dizia o general republicano cercado na Guerra Civil Espanhola: "Companheiros, estamos cercados, não deixem o inimigo escapar!" Não entregaremos o jogo antes do fim do segundo tempo. Pela Democracia, pela politização e pela Soberania do Brasil, à luta!