QUANDO
O BLOCO DA VITÓRIA ENTRA NA RUA
(Lula,
o povo e a hora da virada)
Por: Marcos Inácio Fernandes*

Uma leitura política do frevo “O Bloco da Vitória de Nelson Ferreira*
Há momentos na história em que
a política deixa os gabinetes, abandona os discursos protocolares e ganha as
ruas. Nesses momentos, a história parece encontrar sua própria música. E poucas
expressões da cultura brasileira traduzem tão bem esse fenômeno quanto o frevo
pernambucano.
É nesse universo que o Bloco
da Vitória, de Nelson Ferreira, oferece uma poderosa metáfora para
compreender a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente
sua capacidade de atravessar derrotas, resistir às adversidades e retornar ao
centro da vida política brasileira.
O frevo anuncia, com a alegria
contagiante das multidões, que chegou a hora da virada. Mas essa virada não
acontece por determinação de um líder isolado. Ela depende de uma força
coletiva que transforma esperança em movimento e movimento em possibilidade
histórica.
A primeira grande lição do
frevo é que a vitória começa quando o povo entra na rua.
Lula conhece profundamente
essa linguagem. Sua trajetória política nasceu das assembleias operárias, das
greves do ABC paulista, da organização sindical e da construção de um projeto
político que buscava transformar demandas sociais em participação no poder.
Como no frevo, não se trata de
uma caminhada solitária. Há um cordão, uma multidão, uma coletividade que
reconhece interesses comuns e decide caminhar junta.
A virada não é um presente: é
uma construção
Na política, como na música, o
ritmo importa.
O frevo começa com a
convocação, ganha velocidade, incorpora novos participantes e transforma o
movimento individual em uma celebração coletiva.
A trajetória de Lula também
conheceu diferentes compassos: as derrotas eleitorais, a chegada à Presidência
em 2003, os conflitos políticos, a prisão, a recuperação dos direitos políticos
e a vitória presidencial de 2022, pela terceira vez..
Essa sequência não deve ser
compreendida como um destino inevitável, mas como resultado de disputas
sociais, decisões institucionais, estratégias políticas e mobilizações
populares.
A imagem do bloco que não
interrompe sua marcha diante das dificuldades permite interpretar a resistência
política como uma combinação de persistência, organização e capacidade de
reconstrução.
É justamente aí que a analogia
ganha profundidade.
O povo não é apenas o
espectador da virada. É um dos seus principais agentes históricos.
“Quando o povo decide entrar
na frevança”
Há um aspecto especialmente
expressivo no frevo de Nelson Ferreira: a celebração popular não elimina a
memória das dificuldades.
O povo que dança também é o
povo que trabalha, enfrenta a carestia, convive com a desigualdade e luta pela
sobrevivência.
Por isso, a alegria do bloco
não pode ser confundida com a ausência de sofrimento. Ela representa a
capacidade de produzir esperanças apesar dele.
Na experiência política
brasileira, a ascensão de Lula está relacionada a esse universo de
trabalhadores urbanos e rurais, movimentos sociais e parcelas da população
historicamente afastadas dos centros de decisão.
Entretanto, é necessário
reconhecer que o povo brasileiro não constitui uma vontade única. Suas
aspirações são diversas, frequentemente contraditórias e atravessadas por
conflitos de classe, território, geração e valores.
A força da metáfora está
precisamente nessa tensão: transformar uma multidão heterogênea em um movimento
político suficientemente articulado para disputar os rumos do país.
A gargalhada como expressão de
resistência
O frevo também reserva um
lugar especial ao riso.
Não se trata apenas da
gargalhada carnavalesca, mas da possibilidade de enfrentar o medo, desafiar a
resignação e recuperar a confiança no futuro.
Na história política, o humor
popular muitas vezes funcionou como linguagem de crítica ao poder. A sátira, a
irreverência e a festa permitem expressar aquilo que nem sempre encontra espaço
nos discursos oficiais.
A virada de Lula pode ser
lida, nessa perspectiva, como um momento em que seus apoiadores transformaram a
memória da derrota no 1º turno em celebração política.
Mas a festa eleitoral tem seus
limites.
A vitória nas urnas não
resolve a concentração de renda, as desigualdades regionais ou os conflitos
entre interesses econômicos e direitos sociais.
O bloco pode conquistar a
avenida. Governar o país, porém, exige transformar a energia da mobilização em
políticas públicas, instituições democráticas e resultados concretos.
A verdadeira vitória começa
depois da festa
Aqui reside a dimensão mais
importante da analogia.
O frevo celebra a chegada da
vitória; a política precisa perguntar o que será feito com ela.
A volta de Lula à Presidência
em 2023 representou, para seus apoiadores, uma possibilidade de reconstrução de
políticas sociais e de retomada de compromissos democráticos. Mesmo com todos
os avanços dos indicadores econômicos, Lula sofre uma oposição zoológica da
extrema direita bolsonarista, que afeta o Brasil e sua soberania. (Vide o apoio
aos tarifaços dos EUA).
A democracia em risco
O povo entendeu esse risco a
partir das primeiras declarações do candidato vencedor do 1º turno. Ameaça a
Constituição, o “tesouraço” prometido e as imagens de comemoração da vitória.: a
arma na mão da criança, o chicote da Júlia Zanatta (PL-SC), os incêndios na
Universidade de Pernambuco.
.A medida histórica de uma
virada política não está apenas na capacidade de vencer uma eleição, mas na
possibilidade de ampliar direitos, reduzir desigualdades e produzir mudanças
duradouras nas condições de vida da população.
É nesse ponto que a alegria do
frevo encontra a responsabilidade do Estado.
A vitória deixa de ser
exclusivamente partidária e passa a ser julgada por seus efeitos sobre a
sociedade.
O Brasil ainda está na avenida
Nelson Ferreira compôs um
frevo que ultrapassa o tempo de sua criação porque compreendeu algo essencial
sobre a cultura popular: a esperança também precisa de ritmo, de corpo e de
presença coletiva.
A história de Lula permite uma
leitura semelhante. Sua trajetória demonstra que derrotas políticas não
encerram necessariamente um projeto e que a capacidade de reorganização pode
alterar situações consideradas definitivas.
Mas nenhuma virada pertence
para sempre a um líder, a um partido ou a uma geração. Pertence a toda
sociedade organizada.
A democracia é um movimento
permanente, feito de avanços, recuos, conflitos e novas possibilidades.
O Bloco da Vitória
oferece, assim, uma imagem do Brasil que insiste em se reinventar: um país que
conhece as dificuldades, mas não renuncia ao direito de sonhar; que enfrenta
suas contradições, mas continua procurando caminhos de transformação.
Porque a grande virada não
acontece apenas quando um candidato vence. Acontece quando a esperança coletiva
consegue transformar-se em conquistas sociais.
E, enquanto houver
desigualdade a enfrentar, direitos a defender e democracia a aperfeiçoar, o
Brasil continuará precisando de gente disposta a entrar na avenida e dançar o
frevo.
Afinal, a história não termina
quando o bloco vence.
É depois da vitória que começa
a verdadeira responsabilidade de mudar o país.
Rio Branco (AC), 12 de
outubro, dia da Padroeira do Brasil, de 2026
*Marcos Inácio Fernandes, 78
anos, é professor aposentado e militante do PT
PS 1 -Texto inspirado no frevo
“Bloco da Vitória”, de Nelson Ferreira transcrito abaixo:
Bloco da Vitória
Nelson Ferreira
”O Bloco da Vitória está na rua
Desde que o dia raiou
Venha minha gente
Pro nosso cordão
Que a hora da virada chegou, ô ô ô ô
Quando o povo decide
Cair na frevança
Não há quem dê jeito
Aguenta o rojão
Fica sem comer
Mas no fim dá tudo ok
Neste carnaval
Quá quá quá quá
O prazer é gargalhar
E com bate bate de maracujá
A nossa vitória vamos festejar”.
PS 2 – Imagens dos “vencedores” do 1º turno


Criança de arma na
mão comemorando em Parnamirim-RN e deputada Júlia Zanatta (PL-SC) de rêlho na
mão, comemorando em Santa Catarina.