segunda-feira, 12 de outubro de 2026

QUANDO O BLOCO DA VITÓRIA ENTRA NA RUA.

 

QUANDO O BLOCO DA VITÓRIA ENTRA NA RUA

(Lula, o povo e a hora da virada)

Por: Marcos Inácio Fernandes*

Uma leitura política do frevo  “O Bloco da Vitória de Nelson Ferreira*

Há momentos na história em que a política deixa os gabinetes, abandona os discursos protocolares e ganha as ruas. Nesses momentos, a história parece encontrar sua própria música. E poucas expressões da cultura brasileira traduzem tão bem esse fenômeno quanto o frevo pernambucano.

É nesse universo que o Bloco da Vitória, de Nelson Ferreira, oferece uma poderosa metáfora para compreender a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente sua capacidade de atravessar derrotas, resistir às adversidades e retornar ao centro da vida política brasileira.

O frevo anuncia, com a alegria contagiante das multidões, que chegou a hora da virada. Mas essa virada não acontece por determinação de um líder isolado. Ela depende de uma força coletiva que transforma esperança em movimento e movimento em possibilidade histórica.

A primeira grande lição do frevo é que a vitória começa quando o povo entra na rua.

Lula conhece profundamente essa linguagem. Sua trajetória política nasceu das assembleias operárias, das greves do ABC paulista, da organização sindical e da construção de um projeto político que buscava transformar demandas sociais em participação no poder.

Como no frevo, não se trata de uma caminhada solitária. Há um cordão, uma multidão, uma coletividade que reconhece interesses comuns e decide caminhar junta.

A virada não é um presente: é uma construção

Na política, como na música, o ritmo importa.

O frevo começa com a convocação, ganha velocidade, incorpora novos participantes e transforma o movimento individual em uma celebração coletiva.

A trajetória de Lula também conheceu diferentes compassos: as derrotas eleitorais, a chegada à Presidência em 2003, os conflitos políticos, a prisão, a recuperação dos direitos políticos e a vitória presidencial de 2022, pela terceira vez..

Essa sequência não deve ser compreendida como um destino inevitável, mas como resultado de disputas sociais, decisões institucionais, estratégias políticas e mobilizações populares.

A imagem do bloco que não interrompe sua marcha diante das dificuldades permite interpretar a resistência política como uma combinação de persistência, organização e capacidade de reconstrução.

É justamente aí que a analogia ganha profundidade.

O povo não é apenas o espectador da virada. É um dos seus principais agentes históricos.

“Quando o povo decide entrar na frevança”

Há um aspecto especialmente expressivo no frevo de Nelson Ferreira: a celebração popular não elimina a memória das dificuldades.

O povo que dança também é o povo que trabalha, enfrenta a carestia, convive com a desigualdade e luta pela sobrevivência.

Por isso, a alegria do bloco não pode ser confundida com a ausência de sofrimento. Ela representa a capacidade de produzir esperanças apesar dele.

Na experiência política brasileira, a ascensão de Lula está relacionada a esse universo de trabalhadores urbanos e rurais, movimentos sociais e parcelas da população historicamente afastadas dos centros de decisão.

Entretanto, é necessário reconhecer que o povo brasileiro não constitui uma vontade única. Suas aspirações são diversas, frequentemente contraditórias e atravessadas por conflitos de classe, território, geração e valores.

A força da metáfora está precisamente nessa tensão: transformar uma multidão heterogênea em um movimento político suficientemente articulado para disputar os rumos do país.

A gargalhada como expressão de resistência

O frevo também reserva um lugar especial ao riso.

Não se trata apenas da gargalhada carnavalesca, mas da possibilidade de enfrentar o medo, desafiar a resignação e recuperar a confiança no futuro.

Na história política, o humor popular muitas vezes funcionou como linguagem de crítica ao poder. A sátira, a irreverência e a festa permitem expressar aquilo que nem sempre encontra espaço nos discursos oficiais.

A virada de Lula pode ser lida, nessa perspectiva, como um momento em que seus apoiadores transformaram a memória da derrota no 1º turno em celebração política.

Mas a festa eleitoral tem seus limites.

A vitória nas urnas não resolve a concentração de renda, as desigualdades regionais ou os conflitos entre interesses econômicos e direitos sociais.

O bloco pode conquistar a avenida. Governar o país, porém, exige transformar a energia da mobilização em políticas públicas, instituições democráticas e resultados concretos.

A verdadeira vitória começa depois da festa

Aqui reside a dimensão mais importante da analogia.

O frevo celebra a chegada da vitória; a política precisa perguntar o que será feito com ela.

A volta de Lula à Presidência em 2023 representou, para seus apoiadores, uma possibilidade de reconstrução de políticas sociais e de retomada de compromissos democráticos. Mesmo com todos os avanços dos indicadores econômicos, Lula sofre uma oposição zoológica da extrema direita bolsonarista, que afeta o Brasil e sua soberania. (Vide o apoio aos tarifaços dos EUA).

A democracia em risco

O povo entendeu esse risco a partir das primeiras declarações do candidato vencedor do 1º turno. Ameaça a Constituição, o “tesouraço” prometido e as imagens de comemoração da vitória.: a arma na mão da criança, o chicote da Júlia Zanatta (PL-SC), os incêndios na Universidade de Pernambuco.

.A medida histórica de uma virada política não está apenas na capacidade de vencer uma eleição, mas na possibilidade de ampliar direitos, reduzir desigualdades e produzir mudanças duradouras nas condições de vida da população.

É nesse ponto que a alegria do frevo encontra a responsabilidade do Estado.

A vitória deixa de ser exclusivamente partidária e passa a ser julgada por seus efeitos sobre a sociedade.

O Brasil ainda está na avenida

Nelson Ferreira compôs um frevo que ultrapassa o tempo de sua criação porque compreendeu algo essencial sobre a cultura popular: a esperança também precisa de ritmo, de corpo e de presença coletiva.

A história de Lula permite uma leitura semelhante. Sua trajetória demonstra que derrotas políticas não encerram necessariamente um projeto e que a capacidade de reorganização pode alterar situações consideradas definitivas.

Mas nenhuma virada pertence para sempre a um líder, a um partido ou a uma geração. Pertence a toda sociedade organizada.

A democracia é um movimento permanente, feito de avanços, recuos, conflitos e novas possibilidades.

O Bloco da Vitória oferece, assim, uma imagem do Brasil que insiste em se reinventar: um país que conhece as dificuldades, mas não renuncia ao direito de sonhar; que enfrenta suas contradições, mas continua procurando caminhos de transformação.

Porque a grande virada não acontece apenas quando um candidato vence. Acontece quando a esperança coletiva consegue transformar-se em conquistas sociais.

E, enquanto houver desigualdade a enfrentar, direitos a defender e democracia a aperfeiçoar, o Brasil continuará precisando de gente disposta a entrar na avenida e dançar o frevo.

Afinal, a história não termina quando o bloco vence.

É depois da vitória que começa a verdadeira responsabilidade de mudar o país.

Rio Branco (AC), 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, de 2026

*Marcos Inácio Fernandes, 78 anos, é professor aposentado e militante do PT


PS 1 -Texto inspirado no frevo “Bloco da Vitória”, de Nelson Ferreira transcrito abaixo:


Bloco da Vitória

Nelson Ferreira

”O Bloco da Vitória está na rua
Desde que o dia raiou
Venha minha gente
Pro nosso cordão
Que a hora da virada chegou, ô ô ô ô

Quando o povo decide
Cair na frevança
Não há quem dê jeito
Aguenta o rojão
Fica sem comer
Mas no fim dá tudo ok

Neste carnaval
Quá quá quá quá
O prazer é gargalhar
E com bate bate de maracujá
A nossa vitória vamos festejar”.

PS 2 – Imagens dos “vencedores” do 1º turno

Criança de arma na mão comemorando em Parnamirim-RN e deputada Júlia Zanatta (PL-SC) de rêlho na mão, comemorando em Santa Catarina.