sábado, 10 de outubro de 2026

MEMÓRIA, GRATIDÃO E GENEROSIDADE

 

MEMÓRIA, GRATIDÃO E GENEROSIDADE

Maria Augusta Araújo (13/05/1928 — )

Essa é a minha prima e comadre Augusta.

Mãe de quatro filhos, avó de nove netos, bisavó de quatro bisnetos. Os sulcos profundos em sua face não são apenas marcas do tempo: são as 98 voltas que ela já completou em torno do sol, cada uma delas escrita em uma história de resistência e superação. São as cicatrizes de uma vida sofrida, de trabalho na roça desde a infância, quando a enxada pesava mais que os sonhos, mas nunca mais que a sua coragem.

Ela é alfabetizada. E fez da sua própria conquista uma ferramenta de libertação para os outros. Foi professora da rede municipal de ensino, por onde se aposentou, e ajudou a alfabetizar muitas crianças de Carnaúba do Padre, distrito de Pedro Velho, no Rio Grande do Norte. Naquela comunidade rural, terra dos nossos ancestrais, Maria Augusta não é apenas uma moradora: ela é o arquivo vivo da nossa história, a memória que caminha e respira.

Ainda desfrutando de uma lucidez e de uma memória extraordinárias, ela foi a principal fonte oral do livro sobre Carnaúba que meus primos João Maria, Nair Freire e Jonas Freire escreveram recentemente. Se as páginas daquele livro têm alma, é porque a alma de Augusta está nelas.

Nessas eleições, ela não votou no primeiro turno. Mas com toda a sua sabedoria, fez questão de compreender a importância de reeleger Lula. Disse, com a humildade dos grandes, que é grata pelos programas sociais do presidente, mesmo sem se beneficiar diretamente deles. Sua gratidão não é interesseira: é a generosidade de quem reconhece no outro a sua própria luta.

No próximo dia 25, ela vai exercer a sua cidadania anciã e vai votar em Lula. Não por imposição, não por moda, mas por consciência. Porque 98 anos de vida ensinam que a política não é um detalhe: é a diferença entre a dignidade e o esquecimento.

É um exemplo para as gerações mais novas das nossas famílias — os Fernandes, Freires, Costas, Medeiros, Alves, Araújos... Mirem-se no exemplo da nossa matriarca nonagenária, minha comadre Augusta. Que a sua teimosia bonita, a sua lucidez afiada e a sua fé na justiça nos sirvam de bússola.

Rio Branco (AC), 10 de outubro de 2026.

Marcos Inácio Fernandes, 78 anos, professor aposentado e militante do PT.


P.S. Dizem as fontes murmurantes que Augusta tem a língua mais afiada do que a de muitas manicures e uma agilidade de raciocínio que envergonha muito jovem. Ela não leva desaforo para casa. Conta-se que, certa vez, na feira de Pedro Velho, uma comadre muito indiscreta a abordou dizendo:

— “Comadre, você está muito envelhecida, a sua cara está cheia de pregas e pés-de-galinha…”

Augusta, sem pestanejar, respondeu bem alto, para que todos ouvissem:

— “Pois é, comadre. A minha cara, que todo dia passo pó, um rugezinho, um batonzinho, está assim… imagine o meu cu!!”

Marcão, comadre Auguste e afilhada Cristina.