Da Doutrina Monroe, ao "Make America Great Again”- MAGA
(um breve histórico das intervenções e decadência do império
americano)
Por: Marcos Inácio Fernandes*
“Nunca vai haver golpe nos EUA porque não existe uma embaixada americana lá”
(Frase
atribuída ao ex-presidente do Equador, Rafael Correa)
Formulada pelo presidente James Monroe em mensagem ao
Congresso em 1823, a doutrina estabeleceu o princípio de que o continente
americano não deveria ser mais alvo de colonização ou intervenção por potências
europeias, e que qualquer tentativa nesse sentido seria vista como ato hostil
aos Estados Unidos. O lema informal que resumiu a ideia — "a América para
os americanos" — nasceu com um tom defensivo, de proteção às jovens
repúblicas latino-americanas recém-independentes. Mas, ao longo do século
seguinte, essa mesma lógica foi reinterpretada para justificar o oposto: em vez
de apenas impedir a Europa de intervir, os Estados Unidos passaram a se arrogar
o direito de intervir eles mesmos na região.
O
Corolário Roosevelt e a política do Big Stick ("falar manso, mas carregar
um grande porrete").
Essa virada ficou explícita em 1904, quando o
presidente Theodore Roosevelt anunciou o chamado Corolário Roosevelt à Doutrina
Monroe: os Estados Unidos passariam a agir como "polícia
internacional" no hemisfério, intervindo em países latino-americanos
sempre que julgassem necessário para garantir estabilidade e o pagamento de
dívidas a credores estrangeiros. Roosevelt resumiu sua diplomacia com a frase
"fale suave e carregue um porrete grande" — a política do Big Stick,
que combinava negociação com a ameaça constante do uso da força militar e
econômica. Foi sob essa lógica que os Estados Unidos apoiaram a separação do
Panamá da Colômbia em 1903 para viabilizar a construção do Canal do Panamá sob
controle americano, e ocuparam militarmente ou controlaram as finanças de
países como Cuba, República Dominicana, Haiti e Nicarágua nas primeiras décadas
do século XX.
Guerra Fria: golpes e intervenções indiretas
Com a Guerra Fria, o padrão de intervenção mudou de
forma, mas não de lógica: em nome de conter o comunismo, os Estados Unidos
apoiaram ou orquestraram diretamente a derrubada de governos eleitos na região.
Exemplos centrais incluem o golpe apoiado pela CIA contra Jacobo Árbenz na
Guatemala em 1954, a tentativa de invasão da Baía dos Porcos contra Cuba em
1961, apoio ao golpe de 1964, no Brasil, o apoio ao golpe que derrubou Salvador
Allende no Chile em 1973, e o financiamento de forças contrarrevolucionárias na
Nicarágua sandinista nos anos 1980. Intervenções militares diretas também
ocorreram, como a invasão de Granada em 1983 e a invasão do Panamá em 1989, que
terminou com a captura do ditador Manuel Noriega.
O
presente: a operação contra Maduro na Venezuela
E sse padrão histórico ressurgiu de forma direta em 3
de janeiro de 2026, quando forças especiais dos Estados Unidos lançaram a
Operação Absolute Resolve em Caracas, capturando o presidente venezuelano
Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e levando-os para julgamento em Nova
York sob acusações de narcotráfico. A ação, que envolveu bombardeios e resultou
em dezenas de mortos, foi seguida pela posse da vice-presidente Delcy Rodríguez
como presidente interina e por declarações do presidente Donald Trump de que os
Estados Unidos passariam a "administrar" o país durante uma
transição, incluindo forte presença de empresas americanas na indústria
petrolífera venezuelana. O episódio foi tratado pelo governo americano como
vitória contra o narcotráfico e por um regime que classificam como ilegítimo;
críticos internacionais e juristas, por outro lado, apontam que a operação
ocorreu sem autorização do Congresso americano, sem mandado internacional e
configura uso unilateral da força contra um Estado soberano — para muitos
analistas, a reedição mais recente da mesma lógica iniciada pela Doutrina
Monroe e consolidada pelo Big Stick há mais de um século.]
"Make
America Great Again"- MAGA (Torne a América Grande Novamente): um slogan
que já pressupõe o declínio
De
onde veio o slogan
A frase não nasceu com Trump: Ronald Reagan já a usara
em 1980, num contexto de crise do petróleo, estagflação e humilhação
diplomática após a crise dos reféns no Irã. Trump a recuperou em 2015,
registrou como marca e a transformou no símbolo central de duas campanhas
presidenciais vitoriosas. O uso repetido da expressão, em momentos tão
distintos, tem algo em comum: ela só faz sentido político se parte relevante do
eleitorado já sentir, na pele, que algo se perdeu — que os Estados Unidos foram
mais fortes, mais respeitados ou mais prósperos no passado do que são agora.
Um
slogan que confirma a tese da decadência
É aqui que o slogan dialoga diretamente com a leitura
do "império em declínio". Dificilmente uma potência no auge de sua
confiança elegeria como lema nacional a promessa de recuperar uma grandeza
perdida. O próprio "again" é uma admissão implícita de que a grandeza
atual é insuficiente, ou de que ela existiu antes e foi corroída — por
desindustrialização, por concorrência de outras potências, por guerras
mal-sucedidas, por perda de coesão interna. Nesse sentido, o slogan funciona
quase como um sintoma da mesma ansiedade que, em outra escala, aparece nas
tarifas protecionistas e nas intervenções militares mais recentes: a sensação
de que é preciso agir com força, e agir agora, para deter uma perda de posição
que já é percebida por dentro.
A
leitura de quem apoia o slogan
Do lado oposto do debate, apoiadores do movimento MAGA
argumentam que a frase não é nostalgia vazia, mas resposta concreta a processos
reais: o fechamento de fábricas e a perda de empregos industriais para o
exterior a partir dos anos 1990 e 2000, o crescimento econômico e militar da
China, guerras longas e caras no Oriente Médio sem vitórias claras, e uma
sensação de que instituições internacionais passaram a limitar a soberania
americana em vez de servi-la. Para essa visão, tarifas, renegociação de acordos
comerciais e uma postura externa mais assertiva — incluindo ações como a
intervenção na Venezuela — não são sintomas de fraqueza, mas justamente o
conteúdo prático da promessa: reindustrializar, reduzir dependências externas e
reafirmar, por meios diretos, uma posição de força que consideram ter sido
abandonada por gestões anteriores.
Duas
leituras, um mesmo diagnóstico de fundo
É interessante notar que praticamente todo o espectro
político concorda com a premissa do slogan — que algo mudou, que a posição
americana no mundo não é mais a mesma de décadas atrás. A divergência real não
está em admitir ou negar essa mudança, mas em como interpretá-la: como declínio
a ser revertido pela força (tarifas, intervenções, unilateralismo) ou como uma
transição inevitável rumo a um mundo mais multipolar, que nenhuma política de
"grandeza recuperada" conseguiria, no fundo, desfazer.
Uma
linha de continuidade — e um debate em aberto
Do ponto de vista histórico, há uma linha
relativamente clara entre esses episódios: a região tratada como esfera natural
de influência americana, intervenções justificadas ora por segurança, ora por
dívidas, ora pelo combate ao comunismo, ora ao narcotráfico, e o uso da força —
militar, econômica ou diplomática — como instrumento corriqueiro dessas
intervenções.
*Marcos Inácio Fernandes, é militante do PT e
professor aposentado da UFAC

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