MEMÓRIA, GRATIDÃO
E GENEROSIDADE

Maria Augusta
Araújo (13/05/1928 — )
Essa é a minha prima e
comadre Augusta.
Mãe de quatro filhos, avó
de nove netos, bisavó de quatro bisnetos. Os sulcos profundos em sua face não
são apenas marcas do tempo: são as 98 voltas que ela já completou em torno do
sol, cada uma delas escrita em uma história de resistência e superação. São as
cicatrizes de uma vida sofrida, de trabalho na roça desde a infância, quando a
enxada pesava mais que os sonhos, mas nunca mais que a sua coragem.
Ela é alfabetizada. E fez
da sua própria conquista uma ferramenta de libertação para os outros. Foi
professora da rede municipal de ensino, por onde se aposentou, e ajudou a
alfabetizar muitas crianças de Carnaúba do Padre, distrito de Pedro Velho, no
Rio Grande do Norte. Naquela comunidade rural, terra dos nossos ancestrais,
Maria Augusta não é apenas uma moradora: ela é o arquivo vivo da nossa
história, a memória que caminha e respira.
Ainda desfrutando de uma
lucidez e de uma memória extraordinárias, ela foi a principal fonte oral do
livro sobre Carnaúba que meus primos João Maria, Nair Freire e Jonas Freire
escreveram recentemente. Se as páginas daquele livro têm alma, é porque a alma
de Augusta está nelas.
Nessas eleições, ela não
votou no primeiro turno. Mas com toda a sua sabedoria, fez questão de
compreender a importância de reeleger Lula. Disse, com a humildade dos grandes,
que é grata pelos programas sociais do presidente, mesmo sem se beneficiar diretamente
deles. Sua gratidão não é interesseira: é a generosidade de quem reconhece no
outro a sua própria luta.
No próximo dia 25, ela
vai exercer a sua cidadania anciã e vai votar em Lula. Não por
imposição, não por moda, mas por consciência. Porque 98 anos de vida ensinam
que a política não é um detalhe: é a diferença entre a dignidade e o
esquecimento.
É um exemplo para as
gerações mais novas das nossas famílias — os Fernandes, Freires, Costas,
Medeiros, Alves, Araújos... Mirem-se no exemplo da nossa matriarca nonagenária,
minha comadre Augusta. Que a sua teimosia bonita, a sua lucidez afiada e a sua
fé na justiça nos sirvam de bússola.
Rio Branco (AC), 10 de
outubro de 2026.
Marcos Inácio Fernandes,
78 anos, professor aposentado e militante do PT.
P.S.
Dizem as fontes murmurantes que Augusta tem a língua mais afiada do que a de
muitas manicures e uma agilidade de raciocínio que envergonha muito jovem. Ela
não leva desaforo para casa. Conta-se que, certa vez, na feira de Pedro Velho,
uma comadre muito indiscreta a abordou dizendo:
— “Comadre, você está
muito envelhecida, a sua cara está cheia de pregas e pés-de-galinha…”
Augusta, sem pestanejar,
respondeu bem alto, para que todos ouvissem:
— “Pois é, comadre. A
minha cara, que todo dia passo pó, um rugezinho, um batonzinho, está assim…
imagine o meu cu!!”

Marcão, comadre Auguste e afilhada
Cristina.