sexta-feira, 17 de julho de 2026

POESIA NESSES CANALHAS!!!

 

POESIA NESSES CANALHAS!!!

(OU DE TARIFAS E TAREFAS)

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Por: Marcos Inácio Fernandes*

“Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.”

(Tarefa - Geir Campos)

Os canalhas detestam poesias. Então resgatei essa belíssima poesia de Geir Campos para estabelecer uma analogia com as tarifas de 25% que os EUA, de forma unilateral, impuseram ao Brasil.

O poema de Geir Campos e o tarifaço dos EUA sobre o Brasil

O poema "Tarefa", de Geir Campos, é um manifesto em versos sobre resistência silenciosa e denúncia constante: suportar o que é amargo, injusto e falso sem se conformar a isso, e ao mesmo tempo alertar os outros para essa realidade, na confiança de que a consciência coletiva, quando amadurecer, poderá transformar o mundo. É fácil de  perceber como essa estrutura — suportar, denunciar, esperar a mudança — se encaixa quase perfeitamente na disputa comercial que o Brasil vem enfrentando com os Estados Unidos desde 2025, marcada por sucessivas tarifas, entre elas a mais recente, de 25%, confirmada pelo governo americano, agora, em julho de 2026.

O fruto amargo: receber a tarifa sem se calar

O poema abre pedindo que se morda "o fruto amargo e não cuspir", mas que se avise aos outros do seu amargor. Essa é exatamente a posição em que o Brasil se colocou diante das tarifas americanas: o país não rompeu unilateralmente as relações comerciais nem tentou "cuspir" o problema por meio de uma retaliação impulsiva, mas absorveu o impacto — o esquema de tarifas de 50% anunciado em 2025, depois parcialmente suavizado com isenções para setores como aeronaves, suco de laranja e petróleo — ao mesmo tempo em que o governo, por meio de autoridades como o vice-presidente Geraldo Alckmin, passou a divulgar publicamente dados mostrando que a medida era desproporcional.

O trato injusto: cumprir sem deixar de denunciar

Na sequência, o  lirismo da poesia propõe "cumprir o trato injusto e não falhar", mas "avisar aos outros quanto é injusto". Exportadores brasileiros, de fato, tiveram de se adaptar às novas regras — pagando as tarifas ou buscando outros mercados, como a China, para não perder competitividade — sem deixar de cumprir seus contratos e compromissos. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro levou o caso a fóruns internacionais e à opinião pública, insistindo em mostrar que a justificativa oficial para o tarifaço, ligada a um suposto déficit comercial americano, contrariava os próprios números: os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil há anos.

O esquema falso: sofrer sem ceder à narrativa

O terceiro par de versos fala em "sofrer o esquema falso e não ceder", mas "avisar aos outros quanto é falso". Aqui a analogia é quase literal: a tarifa de 2026 foi apresentada como resposta a práticas comerciais desleais do Brasil, mas os dados oficiais contradizem essa versão. O país sofre o efeito prático da medida — perda de competitividade em setores como siderurgia, café e produtos químicos —, mas não abandona o esforço de mostrar, com números, que o "esquema" apresentado como justificativa não corresponde à realidade.

Coisas mutáveis: a instabilidade das próprias tarifas

O poema faz questão de lembrar que tudo isso são "coisas mutáveis" — e a própria história recente das tarifas confirma essa mutabilidade. Em pouco mais de um ano, houve tarifa de 50%, isenções setoriais, uma decisão da Suprema Corte americana declarando ilegais as tarifas globais de Trump, a substituição por uma tarifa geral de 10% e, agora, uma nova tarifa de 25% resultante de uma investigação específica. Nada disso é definitivo; é, como diz o poema, sujeito a mudança — o que abre espaço justamente para a ação e a denúncia continuarem fazendo sentido.

Quando a noção pulsar em muitos: um novo arranjo comercial

Por fim, o poema aposta que, quando "em muitos a noção pulsar" sobre o amargo, o injusto e o falso, será possível confiar "à gente exausta" o projeto de um mundo novo. O Brasil não foi o único país afetado por tarifas unilaterais dos Estados Unidos nesse período; vários parceiros comerciais passaram por situação semelhante. É razoável ler nisso um paralelo com o desfecho do poema: à medida que mais países sentem o mesmo tipo de medida considerada arbitrária, cresce a pressão coletiva — em fóruns como a Organização Mundial do Comércio, o Mercosul ou o BRICS — por regras de comércio internacional mais previsíveis e menos sujeitas à vontade de um único governo.

Conclusão

Escrito décadas antes de qualquer tarifaço, "Tarefa" fala de uma postura diante da injustiça que continua atual: suportar sem se calar, cumprir sem deixar de contestar, resistir sem aceitar a mentira como verdade — e confiar que a mudança vem quando a percepção da injustiça se torna coletiva. A disputa tarifária entre Brasil e Estados Unidos é apenas um episódio recente entre tantos em que essa lógica se repete, o que talvez explique por que um poema de outro tempo ainda soa tão preciso para descrever o presente.

Saídas para o Brasil diante do tarifaço: negociação, diversificação e a Lei da Reciprocidade

A nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, confirmada pelo USTR em 15 de julho de 2026 e prevista para entrar em vigor em 22 de julho, foi justificada pelos Estados Unidos com base numa investigação da Seção 301, que apontou como problemas o tratamento dado ao Pix no comércio digital, o acesso ao mercado de etanol, leis brasileiras de combate à corrupção, desmatamento e proteção de propriedade intelectual. Diante disso, o governo brasileiro já sinalizou um conjunto de respostas — algumas diplomáticas, outras potencialmente retaliatórias.

1.      A via diplomática e institucional

A primeira saída, e a que especialistas em comércio exterior costumam apontar como mais segura, é a negociação bilateral direta, buscando reverter ou reduzir a tarifa por acordo. Paralelamente, o Brasil anunciou que vai acionar o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando formalmente a medida americana perante o organismo multilateral — um caminho mais lento, mas que evita a escalada imediata de uma disputa bilateral.

2.      Diversificação de mercados e proteção interna.

Uma segunda frente não é retaliar diretamente, mas reduzir a dependência do mercado americano, redirecionando exportações para China, União Europeia, países árabes e parceiros do Mercosul — estratégia que já vinha funcionando: mesmo sob tarifas anteriores, as exportações brasileiras bateram recorde em 2025. Internamente, o governo atualizou o Plano Brasil Soberano por meio da Medida Provisória 1.345/2026, que prevê linhas de crédito do BNDES para amparar setores exportadores mais atingidos pela tarifa, amortecendo o impacto sem precisar de retaliação direta.

3.      A Lei da Reciprocidade Econômica

A terceira via, e a mais discutida no momento, é a Lei nº 15.122, sancionada em abril de 2025 e conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica e Comercial. Ela foi criada justamente em resposta à primeira onda de tarifas de Trump contra o Brasil, e autoriza o governo a adotar contramedidas proporcionais quando outro país impuser barreiras comerciais unilaterais que prejudiquem a competitividade brasileira.

A lei prevê dois ritos de aplicação: o ordinário, para casos menos urgentes, encaminhados à Câmara de Comércio Exterior (Camex) com consulta pública prévia; e o expresso, para situações urgentes, decidido por um comitê interministerial (Indústria e Comércio, Fazenda, Relações Exteriores e Casa Civil), sem necessidade de consulta pública. Diante da tarifa de 25%, o governo já declarou que vai acionar o instrumento e escolherá o rito conforme a urgência de cada setor afetado.

O que a retaliação pode incluir na prática

Entre as medidas previstas pela lei estão: aplicação de tarifas equivalentes sobre produtos importados dos Estados Unidos; suspensão ou redução de isenções e preferências tarifárias hoje concedidas a bens americanos; restrição a certas importações de bens ou serviços; e, de forma mais ampla, suspensão de concessões comerciais, diplomáticas ou consulares. A própria lei determina que essas contramedidas devem, na medida do possível, ser proporcionais ao prejuízo econômico causado — ou seja, não se trata de uma retaliação ilimitada, mas calculada para espelhar o impacto sofrido pelo Brasil.

Risco de escalada: o debate em aberto

Nem todos veem a reciprocidade como o melhor caminho imediato. Análises publicadas logo após o anúncio do tarifaço destacam que acionar a lei é um instrumento juridicamente eficaz, mas que carrega risco real de escalada — retaliar pode levar os Estados Unidos a aumentar ainda mais as tarifas, em vez de recuar. Por isso, mesmo dentro do governo, há quem defenda priorizar a via diplomática antes de qualquer contramedida concreta, reservando a reciprocidade como último recurso caso a negociação não avance. Do lado americano, autoridades como o secretário de Estado Marco Rubio já acusaram o governo brasileiro de resistência nas negociações, o que sugere que qualquer resposta brasileira tende a ser lida em Washington dentro dessa narrativa — mais um fator que pesa na decisão de quando e como aplicar a reciprocidade.

Em resumo

As saídas do Brasil, hoje, combinam três movimentos que não são excludentes: negociar e contestar na OMC, diversificar mercados e proteger setores internamente, e manter a Lei da Reciprocidade como instrumento pronto para retaliação proporcional — tarifas equivalentes, fim de preferências ou restrições a importações americanas — caso a via diplomática se esgote sem resultado.

*Marcos Inácio Fernandes, é militante do PT e professor aposentado da UFAC

PS – O deplorável nesse contencioso é constatar, que brasileiros, que se dizem patriotas, e parte da elite empresarial (vê a canhestra “Nota” da FIESP), apoiam essas tarifas e querem transferir à Lula a responsabilidade por elas. Samuel Johnson, continua atualíssimo: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

 

 


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