POESIA
NESSES CANALHAS!!!
(OU
DE TARIFAS E TAREFAS)
Os
lacaios do Imperialismo Yankee: Os Bolsonaros, Flávio e Eduardo e o neto da ditadura
Paulo Figueiredo. Vassalagem a Trump e Marco Rúbio.
Por: Marcos Inácio
Fernandes*
“Morder o fruto
amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.”
(Tarefa - Geir
Campos)
Os canalhas detestam poesias. Então
resgatei essa belíssima poesia de Geir Campos para estabelecer uma analogia com
as tarifas de 25% que os EUA, de forma unilateral, impuseram ao Brasil.
O poema de Geir Campos e o tarifaço dos EUA
sobre o Brasil
O poema "Tarefa", de Geir
Campos, é um manifesto em versos sobre resistência silenciosa e denúncia
constante: suportar o que é amargo, injusto e falso sem se conformar a
isso, e ao mesmo tempo alertar os outros para essa realidade, na confiança de
que a consciência coletiva, quando amadurecer, poderá transformar o mundo. É
fácil de perceber como essa estrutura —
suportar, denunciar, esperar a mudança — se encaixa quase perfeitamente na
disputa comercial que o Brasil vem enfrentando com os Estados Unidos desde
2025, marcada por sucessivas tarifas, entre elas a mais recente, de 25%,
confirmada pelo governo americano, agora, em julho de 2026.
O fruto amargo: receber a tarifa sem se calar
O poema abre pedindo que se morda
"o fruto amargo e não cuspir", mas que se avise aos outros do seu
amargor. Essa é exatamente a posição em que o Brasil se colocou diante das
tarifas americanas: o país não rompeu unilateralmente as relações comerciais
nem tentou "cuspir" o problema por meio de uma retaliação impulsiva,
mas absorveu o impacto — o esquema de tarifas de 50% anunciado em 2025, depois
parcialmente suavizado com isenções para setores como aeronaves, suco de
laranja e petróleo — ao mesmo tempo em que o governo, por meio de autoridades
como o vice-presidente Geraldo Alckmin, passou a divulgar publicamente dados
mostrando que a medida era desproporcional.
O trato injusto: cumprir sem deixar de denunciar
Na sequência, o lirismo da poesia propõe "cumprir o
trato injusto e não falhar", mas "avisar aos outros quanto é
injusto". Exportadores brasileiros, de fato, tiveram de se adaptar às
novas regras — pagando as tarifas ou buscando outros mercados, como a China,
para não perder competitividade — sem deixar de cumprir seus contratos e
compromissos. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro levou o caso a fóruns
internacionais e à opinião pública, insistindo em mostrar que a justificativa
oficial para o tarifaço, ligada a um suposto déficit comercial americano,
contrariava os próprios números: os Estados Unidos mantêm superávit comercial
com o Brasil há anos.
O esquema falso: sofrer sem ceder à narrativa
O terceiro par de versos fala em "sofrer
o esquema falso e não ceder", mas "avisar aos outros quanto é
falso". Aqui a analogia é quase literal: a tarifa de 2026 foi apresentada
como resposta a práticas comerciais desleais do Brasil, mas os dados oficiais
contradizem essa versão. O país sofre o efeito prático da medida — perda de
competitividade em setores como siderurgia, café e produtos químicos —, mas não
abandona o esforço de mostrar, com números, que o "esquema"
apresentado como justificativa não corresponde à realidade.
Coisas mutáveis: a instabilidade das próprias tarifas
O poema faz questão de lembrar que
tudo isso são "coisas mutáveis" — e a própria história recente
das tarifas confirma essa mutabilidade. Em pouco mais de um ano, houve tarifa
de 50%, isenções setoriais, uma decisão da Suprema Corte americana declarando
ilegais as tarifas globais de Trump, a substituição por uma tarifa geral de 10%
e, agora, uma nova tarifa de 25% resultante de uma investigação específica.
Nada disso é definitivo; é, como diz o poema, sujeito a mudança — o que abre
espaço justamente para a ação e a denúncia continuarem fazendo sentido.
Quando a noção pulsar em muitos: um novo arranjo
comercial
Por fim, o poema aposta que, quando "em
muitos a noção pulsar" sobre o amargo, o injusto e o falso, será
possível confiar "à gente exausta" o projeto de um mundo novo. O
Brasil não foi o único país afetado por tarifas unilaterais dos Estados Unidos
nesse período; vários parceiros comerciais passaram por situação semelhante. É
razoável ler nisso um paralelo com o desfecho do poema: à medida que mais
países sentem o mesmo tipo de medida considerada arbitrária, cresce a pressão
coletiva — em fóruns como a Organização Mundial do Comércio, o Mercosul ou o
BRICS — por regras de comércio internacional mais previsíveis e menos sujeitas
à vontade de um único governo.
Conclusão
Escrito décadas antes de qualquer
tarifaço, "Tarefa" fala de uma postura diante da injustiça que
continua atual: suportar sem se calar, cumprir sem deixar de contestar,
resistir sem aceitar a mentira como verdade — e confiar que a mudança vem quando
a percepção da injustiça se torna coletiva. A disputa tarifária entre Brasil e
Estados Unidos é apenas um episódio recente entre tantos em que essa lógica se
repete, o que talvez explique por que um poema de outro tempo ainda soa tão
preciso para descrever o presente.
Saídas para o Brasil diante do tarifaço: negociação,
diversificação e a Lei da Reciprocidade
A nova tarifa de 25% sobre produtos
brasileiros, confirmada pelo USTR em 15 de julho de 2026 e prevista para entrar
em vigor em 22 de julho, foi justificada pelos Estados Unidos com base numa
investigação da Seção 301, que apontou como problemas o tratamento dado ao Pix
no comércio digital, o acesso ao mercado de etanol, leis brasileiras de combate
à corrupção, desmatamento e proteção de propriedade intelectual. Diante disso,
o governo brasileiro já sinalizou um conjunto de respostas — algumas diplomáticas,
outras potencialmente retaliatórias.
1. A via diplomática e
institucional
A primeira saída, e a que
especialistas em comércio exterior costumam apontar como mais segura, é a
negociação bilateral direta, buscando reverter ou reduzir a tarifa por acordo.
Paralelamente, o Brasil anunciou que vai acionar o mecanismo de solução de controvérsias
da Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando formalmente a medida
americana perante o organismo multilateral — um caminho mais lento, mas que
evita a escalada imediata de uma disputa bilateral.
2. Diversificação de
mercados e proteção interna.
Uma segunda frente não é retaliar
diretamente, mas reduzir a dependência do mercado americano, redirecionando
exportações para China, União Europeia, países árabes e parceiros do Mercosul —
estratégia que já vinha funcionando: mesmo sob tarifas anteriores, as
exportações brasileiras bateram recorde em 2025. Internamente, o governo
atualizou o Plano Brasil Soberano por meio da Medida Provisória 1.345/2026, que
prevê linhas de crédito do BNDES para amparar setores exportadores mais
atingidos pela tarifa, amortecendo o impacto sem precisar de retaliação direta.
3. A Lei da
Reciprocidade Econômica
A terceira via, e a mais discutida no
momento, é a Lei nº 15.122, sancionada em abril de 2025 e conhecida como Lei da
Reciprocidade Econômica e Comercial. Ela foi criada justamente em resposta à
primeira onda de tarifas de Trump contra o Brasil, e autoriza o governo a
adotar contramedidas proporcionais quando outro país impuser barreiras
comerciais unilaterais que prejudiquem a competitividade brasileira.
A lei prevê dois ritos de aplicação:
o ordinário, para casos menos urgentes, encaminhados à Câmara de Comércio
Exterior (Camex) com consulta pública prévia; e o expresso, para situações
urgentes, decidido por um comitê interministerial (Indústria e Comércio,
Fazenda, Relações Exteriores e Casa Civil), sem necessidade de consulta
pública. Diante da tarifa de 25%, o governo já declarou que vai acionar o
instrumento e escolherá o rito conforme a urgência de cada setor afetado.
O que a retaliação pode incluir na prática
Entre as medidas previstas pela lei
estão: aplicação de tarifas equivalentes sobre produtos importados dos Estados
Unidos; suspensão ou redução de isenções e preferências tarifárias hoje
concedidas a bens americanos; restrição a certas importações de bens ou
serviços; e, de forma mais ampla, suspensão de concessões comerciais,
diplomáticas ou consulares. A própria lei determina que essas contramedidas
devem, na medida do possível, ser proporcionais ao prejuízo econômico causado —
ou seja, não se trata de uma retaliação ilimitada, mas calculada para espelhar
o impacto sofrido pelo Brasil.
Risco de escalada: o debate em aberto
Nem todos veem a reciprocidade como o
melhor caminho imediato. Análises publicadas logo após o anúncio do tarifaço
destacam que acionar a lei é um instrumento juridicamente eficaz, mas que
carrega risco real de escalada — retaliar pode levar os Estados Unidos a
aumentar ainda mais as tarifas, em vez de recuar. Por isso, mesmo dentro do
governo, há quem defenda priorizar a via diplomática antes de qualquer
contramedida concreta, reservando a reciprocidade como último recurso caso a
negociação não avance. Do lado americano, autoridades como o secretário de
Estado Marco Rubio já acusaram o governo brasileiro de resistência nas
negociações, o que sugere que qualquer resposta brasileira tende a ser lida em
Washington dentro dessa narrativa — mais um fator que pesa na decisão de quando
e como aplicar a reciprocidade.
Em resumo
As saídas do Brasil, hoje, combinam
três movimentos que não são excludentes: negociar e contestar na OMC,
diversificar mercados e proteger setores internamente, e manter a Lei da
Reciprocidade como instrumento pronto para retaliação proporcional — tarifas
equivalentes, fim de preferências ou restrições a importações americanas — caso
a via diplomática se esgote sem resultado.
*Marcos Inácio Fernandes, é militante
do PT e professor aposentado da UFAC
PS – O deplorável nesse contencioso é
constatar, que brasileiros, que se dizem patriotas, e parte da elite
empresarial (vê a canhestra “Nota” da FIESP), apoiam essas tarifas e querem
transferir à Lula a responsabilidade por elas. Samuel Johnson, continua atualíssimo:
“o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.
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