segunda-feira, 20 de julho de 2026

DA DOUTRINA MONROE AO MAKE AMÉRICA GREAT AGAIN - MAGA

 

Da Doutrina Monroe, ao "Make America Great Again”- MAGA

(um breve histórico das intervenções e decadência do império americano)

Por: Marcos Inácio Fernandes*

“Nunca vai haver golpe nos EUA porque não existe uma embaixada americana lá”

(Frase atribuída ao ex-presidente do Equador, Rafael Correa)

A Doutrina Monroe (1823)

 Formulada pelo presidente James Monroe em mensagem ao Congresso em 1823, a doutrina estabeleceu o princípio de que o continente americano não deveria ser mais alvo de colonização ou intervenção por potências europeias, e que qualquer tentativa nesse sentido seria vista como ato hostil aos Estados Unidos. O lema informal que resumiu a ideia — "a América para os americanos" — nasceu com um tom defensivo, de proteção às jovens repúblicas latino-americanas recém-independentes. Mas, ao longo do século seguinte, essa mesma lógica foi reinterpretada para justificar o oposto: em vez de apenas impedir a Europa de intervir, os Estados Unidos passaram a se arrogar o direito de intervir eles mesmos na região.



O Corolário Roosevelt e a política do Big Stick ("falar manso, mas carregar um grande porrete").

Essa virada ficou explícita em 1904, quando o presidente Theodore Roosevelt anunciou o chamado Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe: os Estados Unidos passariam a agir como "polícia internacional" no hemisfério, intervindo em países latino-americanos sempre que julgassem necessário para garantir estabilidade e o pagamento de dívidas a credores estrangeiros. Roosevelt resumiu sua diplomacia com a frase "fale suave e carregue um porrete grande" — a política do Big Stick, que combinava negociação com a ameaça constante do uso da força militar e econômica. Foi sob essa lógica que os Estados Unidos apoiaram a separação do Panamá da Colômbia em 1903 para viabilizar a construção do Canal do Panamá sob controle americano, e ocuparam militarmente ou controlaram as finanças de países como Cuba, República Dominicana, Haiti e Nicarágua nas primeiras décadas do século XX.


Guerra Fria: golpes e intervenções indiretas

 Com a Guerra Fria, o padrão de intervenção mudou de forma, mas não de lógica: em nome de conter o comunismo, os Estados Unidos apoiaram ou orquestraram diretamente a derrubada de governos eleitos na região. Exemplos centrais incluem o golpe apoiado pela CIA contra Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954, a tentativa de invasão da Baía dos Porcos contra Cuba em 1961, apoio ao golpe de 1964, no Brasil, o apoio ao golpe que derrubou Salvador Allende no Chile em 1973, e o financiamento de forças contrarrevolucionárias na Nicarágua sandinista nos anos 1980. Intervenções militares diretas também ocorreram, como a invasão de Granada em 1983 e a invasão do Panamá em 1989, que terminou com a captura do ditador Manuel Noriega.

O presente: a operação contra Maduro na Venezuela

 Esse padrão histórico ressurgiu de forma direta em 3 de janeiro de 2026, quando forças especiais dos Estados Unidos lançaram a Operação Absolute Resolve em Caracas, capturando o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e levando-os para julgamento em Nova York sob acusações de narcotráfico. A ação, que envolveu bombardeios e resultou em dezenas de mortos, foi seguida pela posse da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina e por declarações do presidente Donald Trump de que os Estados Unidos passariam a "administrar" o país durante uma transição, incluindo forte presença de empresas americanas na indústria petrolífera venezuelana. O episódio foi tratado pelo governo americano como vitória contra o narcotráfico e por um regime que classificam como ilegítimo; críticos internacionais e juristas, por outro lado, apontam que a operação ocorreu sem autorização do Congresso americano, sem mandado internacional e configura uso unilateral da força contra um Estado soberano — para muitos analistas, a reedição mais recente da mesma lógica iniciada pela Doutrina Monroe e consolidada pelo Big Stick há mais de um século.]

"Make America Great Again"- MAGA (Torne a América Grande Novamente): um slogan que já pressupõe o declínio

 

De onde veio o slogan

A frase não nasceu com Trump: Ronald Reagan já a usara em 1980, num contexto de crise do petróleo, estagflação e humilhação diplomática após a crise dos reféns no Irã. Trump a recuperou em 2015, registrou como marca e a transformou no símbolo central de duas campanhas presidenciais vitoriosas. O uso repetido da expressão, em momentos tão distintos, tem algo em comum: ela só faz sentido político se parte relevante do eleitorado já sentir, na pele, que algo se perdeu — que os Estados Unidos foram mais fortes, mais respeitados ou mais prósperos no passado do que são agora.

Um slogan que confirma a tese da decadência

É aqui que o slogan dialoga diretamente com a leitura do "império em declínio". Dificilmente uma potência no auge de sua confiança elegeria como lema nacional a promessa de recuperar uma grandeza perdida. O próprio "again" é uma admissão implícita de que a grandeza atual é insuficiente, ou de que ela existiu antes e foi corroída — por desindustrialização, por concorrência de outras potências, por guerras mal-sucedidas, por perda de coesão interna. Nesse sentido, o slogan funciona quase como um sintoma da mesma ansiedade que, em outra escala, aparece nas tarifas protecionistas e nas intervenções militares mais recentes: a sensação de que é preciso agir com força, e agir agora, para deter uma perda de posição que já é percebida por dentro.

A leitura de quem apoia o slogan

Do lado oposto do debate, apoiadores do movimento MAGA argumentam que a frase não é nostalgia vazia, mas resposta concreta a processos reais: o fechamento de fábricas e a perda de empregos industriais para o exterior a partir dos anos 1990 e 2000, o crescimento econômico e militar da China, guerras longas e caras no Oriente Médio sem vitórias claras, e uma sensação de que instituições internacionais passaram a limitar a soberania americana em vez de servi-la. Para essa visão, tarifas, renegociação de acordos comerciais e uma postura externa mais assertiva — incluindo ações como a intervenção na Venezuela — não são sintomas de fraqueza, mas justamente o conteúdo prático da promessa: reindustrializar, reduzir dependências externas e reafirmar, por meios diretos, uma posição de força que consideram ter sido abandonada por gestões anteriores.

Duas leituras, um mesmo diagnóstico de fundo

É interessante notar que praticamente todo o espectro político concorda com a premissa do slogan — que algo mudou, que a posição americana no mundo não é mais a mesma de décadas atrás. A divergência real não está em admitir ou negar essa mudança, mas em como interpretá-la: como declínio a ser revertido pela força (tarifas, intervenções, unilateralismo) ou como uma transição inevitável rumo a um mundo mais multipolar, que nenhuma política de "grandeza recuperada" conseguiria, no fundo, desfazer.

Uma linha de continuidade — e um debate em aberto

 Do ponto de vista histórico, há uma linha relativamente clara entre esses episódios: a região tratada como esfera natural de influência americana, intervenções justificadas ora por segurança, ora por dívidas, ora pelo combate ao comunismo, ora ao narcotráfico, e o uso da força — militar, econômica ou diplomática — como instrumento corriqueiro dessas intervenções.

 

*Marcos Inácio Fernandes, é militante do PT e professor aposentado da UFAC

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