segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A GRANDE LIÇÃO DA DEMOCRACIA: É PREFERIVEL COCO DE RATO A BOSTA DE ELEFANTE.

A grande lição de Rubem Alves sobre a democracia. Uma lição pertinente no dia em que está prevista a sessão para cassar  Eduardo Cunha, um dos grandes ratos do Congresso. Vamos acompanhar se vai, pelo menos, haver número de Deputados suficiente para abrir a sessão na Câmara Federal (MIF)




O Rato Roeu o Queijo do Rei...

Rubem Alves (1933-2014)

A democracia, eu sempre a amei. Mas, de repente, relendo uma fábula antiga, tive iluminação Zen: meu saber afetivo transformou-se em saber filosófico: sei agora as razões por que amo a democracia. E acho importante que você leitor, saiba o que fiquei sabendo para que, a despeito de tudo, você continue a amar a democracia. Assim, passo a contar-lhe a mesma estória que eu contava à minha neta no momento quando a iluminação aconteceu:
Havia, outrora, num país distante, um rei que amava queijos acima de quaisquer outros prazeres. O seu amor pelos queijos era tão grande que ele mandou vir, de todas as partes do mundo, os mais renomados especialistas em queijo, aos quais foram oferecidos recursos não só para continuar a fabricação de queijos já conhecidos, como também para se dedicar à pesquisa de novos queijos, para assim alargar as fronteiras da ciência, da técnica e da gula. Ficaram famosos os queijos fabricados com leite de baleia e leite de unicórnio, estes últimos procuradíssimos pelas suas virtudes afrodisíacas. O palácio do rei era um enorme depósito de queijos de todas as qualidades, encontrando-se nele os queijos  camenbert, cheddar, edam, emmenthal, gorgonzola, gouda, limburger, parmesão, pecorino, provolone, sapsago, trapista, prato minas, mozarela, ricota, entre outros.
O país tornou-se famoso e enriqueceu-se com a exportação de queijos. O seu cheiro atravessava os mares. Universidades foram criadas com o objetivo de desenvolver a ciência dos queijos. Houve mesmo uma escola teológica que concluiu que o santo sacramento da eucarestia não foi primeiro celebrado com pão e vinho, mas com queijo e vinho, donde se originou o costume que perdura até hoje nas celebrações profanas.
Aconteceu, entretanto, que além do rei e do povo havia outros seres no reino que também gostavam de queijo: os ratos. Atraídos pelo cheiro que saía do palácio, mudaram-se para lá aos milhares e passaram, imediatamente, a banquetear-se com os queijos reais.
Os ratos comiam e se multiplicavam. Tomaram todos os lugares: armários, gavetas, canastras, camas, sofás, cozinha, cofres e até mesmo a barba do rei. O rei passou a ser morada de ratos.
 Mas o pior de tudo era que os ratos, premidos por imperativos digestivos, tinham que expelir por uma extremidade o que haviam engolido pela outra, e, a medida que andavam, espalhavam pelo palácio um rastro de minúsculos cocozinhos, durinhos e malcheirosos.
Furioso, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes:
- Que fazer para nos livrarmos dos ratos?
Eles responderam:
- É fácil Majestade. Basta trazer os gatos.
O rei ficou felicíssimo com  idéia tão brilhante e mandou trazer uma centena de gatos para dar cabo dos ratos.
Os ratos, ao verem os gatos, fugiram espavoridos. Foram-se os ratos . Ficaram os gatos que encheram o palácio. À semelhança dos ratos, os gatos comiam tudo que viam e, compelidos pelas mesmas exigências fisiológicas que moviam os roedores, cobriram os brilhantes pisos do palácio com seus cocos fedorentos.
Furibundo, o rei chamou seus ministros e perguntou-lhes:
- Que fazer para nos livrarmos dos gatos?
E eles responderam:
- É fácil, majestade. Basta trazer os cachorros.
Vieram os cachorros de todos os tipos, grandes e pequenos, curtos e compridos, lisos e pintados.
Os gatos, ao verem os cachorros, fugiram espavoridos. Foram-se os gatos. Ficaram os cachorros, que encheram o palácio. E a mesma estória se repetiu. Ao final, havia coco de cachorro por todos os lugares do palácio.
Apoplético, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes:
- Que fazer para nos livrarmos dos cachorros?
E eles responderam: - É fácil, Majestade. Basta trazer os leões.
Vieram os leões com suas jubas e urros. Os cachorros, ao verem os leões, fugiram em desabalada carreira. Foram-se os cachorros. Ficaram os leões. Mas os leões não só comiam cem vezes mais, como defecavam cem vezes mais que os minúsculos camundongos. O tesouro real entrou em crise. Baixaram as reservas de ouro. O dinheiro não chegava para pagara carne que os leões comiam. E para pagar os catadores de cocos, que ameaçavam entrar em greve.
Desesperado, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes:
- Que fazer para nos livrarmos dos leões?
E eles responderam: É fácil, Majestade. Basta trazer os elefantes.
Foram-se os leões. Ficaram os elefantes. Enormes, eles comiam montanhas e defecavam montanhas. O palácio transformou-se num enorme monte de bosta de elefante. E a fedentina encheu o reino e atravessou os mares.
 Em depressão profunda, o rei chamou seus ministros e perguntou-lhes com voz sumida:
- Que fazer para nos livrarmos dos elefantes?
Os ministros lembraram-se, então, que os elefantes, que nada temem, estremecem-se de medo ao verem um rato. E responderam em coro:
- É fácil, Majestade. Basta trazer os ratos!
E assim foi feito. Voltaram os ratos. Foram-se os elefantes. O rei e todos os que moravam no palácio passaram sorridentemente a conviver com os ratos e os seus cocos.
O dia chegará quando minha neta terá crescido. Não mais lhe contarei estórias. Ela aprenderá sobre a política. Quererá visitar o Congresso Nacional, símbolo da democracia. Notará, espantada, que os prédios estão cheios de cocos de ratos. Me dirá  espantada: Vovô, deve haver muitos ratos por aqui!
Eu responderei: Sim, muitos ratos. E ele me perguntará: mas por que não trazem os gatos para acabar com os ratos? Então eu lhe contarei de novo esta estória e lhe direi: Aprenda a grande lição da democracia; é preferível coco de rato à bosta de elefante.







quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CAMPANHA DA ASBRAER PELA RECRIAÇÃO DO MDA


        
   O SIGNIFICADO DO MDA E SEU COMPROMISSO COM O DESENVOLVIMENTO DO BRASIL

O Ministério do Desenvolvimento Agrário trabalha pelo desenvolvimento rural, implementando 21 políticas públicas eficientes e de grande impacto, voltadas para a agricultura familiar, setor que representar 4,3 milhões de estabelecimentos rurais, no País. Desta forma, assegura o fortalecimento da agricultura brasileira, fazendo com que o mundo olhe para o Brasil como uma solução para os países em desenvolvimento, porque promove o crescimento com inclusão.
Recriar o MDA é garantir que essas políticas públicas cheguem a todos os municípios brasileiros, contribuindo para dinamizar a economia local e para o abastecimento interno de alimentos, atendendo à demanda da população. Além disso, com suas políticas de proteção ambiental e desenvolvimento sustentável, o MDA tornou-se fator determinante para o crescimento econômico e social do Brasil.
Atuando com 84% das propriedades da agricultura familiar, ou seja, 4,3 milhões de estabelecimentos de famílias rurais e um milhão de assentados, o MDA ampliou a geração de empregos no campo, que hoje responde por 77% dos postos de trabalho nas áreas rurais. Além do importante aspecto da geração de emprego – um dos grandes desafios que o Governo Federal se propõe a enfrentar -, o MDA inseriu na dinâmica econômica promovida por suas políticas os agricultores familiares, que respondem, atualmente, por 1/3 do PIB da agropecuária.
Importante frisar que, nos mais de cinco mil municípios brasileiros, a dinamização da economia passa pela agricultura e que o conjunto de políticas do MDA, elaboradas e aplicadas de forma responsável e voltadas para revigorar a economia do País, fez com que a agricultura familiar colaborasse, de forma predominante, na produção dos alimentos que mais impactam a inflação. Além do fator econômico, está nas mãos dos agricultores familiares a produção da maior parte dos alimentos, com o compromisso com a saúde tanto de quem os produz como com a de quem os consome, dentro do conceito de sustentabilidade, exigência para a inserção no mercado mundial.
Levantando a questão da produtividade, é bom ressaltar que nenhum país do mundo produziu  inovação tecnológica como o Brasil fez no campo. Seguindo esta tendência, o MDA inseriu em suas políticas um grande programa de inovação tecnológica para os agricultores familiares e médios produtores do Brasil, que gera resultados impactantes na renda desses beneficiários e fortalece a classe média rural. E mais: é este Ministério que coordena a política de crédito rural para a agricultura familiar com uma carteira de mais de R$ 50 bilhões de crédito “em ser” e aplicação, na última safra, de R$ 28 bilhões.
Por fim, e como argumento não menos importante neste momento de ajuste na economia, a recriação do MDA não gerará despesas para o Governo Federal, pois seus cargos não foram extintos e estão vigindo. E, por ser um forte gerador de desenvolvimento, participando de forma decisiva para revigorar a economia do País, o MDA se torna peça fundamental na unidade dos Ministérios que compõem o conjunto de políticas que alavancarão o Brasil, respondendo à demanda da sociedade por estabilidade econômica e geração de empregos

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O DECLÍNIO DA ESTRELA.






O Declínio da Estrela (1)
(Quem era o PT em que está virado)

Por: Marcos Inácio Fernandes*

“Chorei / não procurei esconder / todos viram / fingiram / pena de mim não precisava / ali onde chorei qualquer um chorava / dar a volta por cima que eu dei / quero ver quem dava. // um homem de moral / não fica no chão / nem quer que mulher / lhe venha dar a mão / reconhece a queda / e não desanima /levanta, sacode a Poeira e dá a volta por cima.”
Paulo Vanzolini (1924-2013) - Samba de 1962, Volta Por Cima.

Essa música é um dos nossos, inúmeros, “hinos nacionais” que o povo canta e sabe decorado. Seu autor, que também era cientista na área de zoologia, numa de suas últimas entrevistas, falou o seguinte: “as pessoas apreciam e destacam mais nessa música os versos que falam de “levantar a poeira e dá a volta por cima”. E Vanzolini arrematava: mais importante que levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima é primeiramente – RECONHECER A QUEDA.”

Reconhecer a queda do nosso Partido dos Trabalhadores – PT, que se encontra no fundo do poço e que se comporta igualmente a pau podre que “tanto cai como derruba os outros” é o que pretendo fazer nesse artigo.

 1º - Sim, nós também fizemos corrupção e cometemos crimes. Não esse “crime de responsabilidade”, que usaram como pretexto para destituir a nossa Presidenta, mas inúmeros outros tipificados em lei. Nós que éramos pregadores da ética na política e apontávamos o dedo para os desvios dos outros, nos igualamos aos “outros”. E esse comportamento é inaceitável no “pregador” enquanto que no “pecador” contumaz é tolerável. As pessoas já estão acostumadas com essas disfunções comportamentais e de caráter.
O certo foi que perdemos o nosso discurso ÉTICO e ganhamos dois apelidos pejorativos que já se incorporaram ao vocabulário político: PETRALHAS e MENSALEIROS.
Desprezamos uma lição de Sun Tzu (500 a.C) da sua Arte da Guerra no capítulo VIII, que transcrevo integralmente e negrito o tópico específico sobre o desvio de conduta. Ensina Sun Tzu:

 “Há cinco erros perigosos que podem afetar um comandante: A negligência, que leva à destruição; A covardia que leva à captura; A debilidade da honra, que é sensível à vergonha; E um temperamento impetuoso, que pode ser provocado com insultos. O último desses erros é excesso de solicitude com seus soldados, expondo-os a preocupações e perturbações (Cap. VIII).”

O PT, que mereceu um estudo, depois transformado em livro, da brasilianista americana Margaret Keck: “PT A Lógica da Diferença - O Partido dos Trabalhadores na construção da democracia brasileira” (São Paulo: Editora Ática, 1991), não manteve essa “lógica da diferença” que nos distinguia dos demais e nos tornamos a mesma gelatina, pastosa e sem densidade, que caracterizam a maioria das agremiações políticas brasileiras. Cedemos as suas velhas práticas e nos demos mal. Muito mal.

2º - E fizemos isso porque achávamos que estando no governo estaríamos também no poder. Faltou-nos a leitura do clássico de Raymundo Faoro – “Os Donos do Poder” (São Paulo: Globo, 1991), onde ele mostra a formação do patronato político brasileiro. Também faltou algumas leituras básicas para saber que o poder se desloca, que tem diversas faces, que é constituído pelas relações de forças na sociedade. “A construção de uma estratégia de poder para as classes subalternas depende, antes de tudo, da análise de poder das classes dominantes. Porque se trata de um processo simultâneo de desarticulação desse poder e de construção de um novo.” (Emir Sader – O Poder, Cadê o poder? Ensaios para uma nova esquerda. São Paulo: Boitempo Editorial, 1997). Não tivemos forças nem capacidade para desarticular o poder dominante nem construir um novo. Fico num exemplo emblemático: não mexemos no poder da mídia capitaneada pelas organizações globo. O latifúndio midiático, bem mais concentrado que o latifúndio rural. A mídia familiar dos clãs Marinho, (Rádio e TV Globo, Globo News, G1, revista Época e jornal O Globo) Civitas, (Veja e demais publicações) Mesquita, (Estado de São Paulo) Frias, (Folha de São Paulo e Portal UOL), Abravanel, (SBT) Saady, (BAND), Macêdo (Record), e Syrotski (RBS). Essas famílias que fazem a “cabeça” do nosso povo, através de seu domínio ideológico, não foram desarticuladas. Pelo contrário, através das verbas publicitárias do governo, pagamos para apanhar diuturnamente. Havia um discurso único e uma pauta comum a todos eles: “o Brasil é uma merda”, vazamentos na imprensa de investigações, ditas sigilosas, assassinatos de reputações, amplificação distorcidas e tendenciosas dos fatos e pré-julgamentos e condenações pela imprensa, que se arvorou em se transformar em partido político, sem registros no TSE e sem votos.
Ademais, os donos do poder, que sempre foram tão condescendentes com os esquemas de corrupção e outros desvios de comportamento, foram implacáveis com o PT. Os nossos corruptos foram pré-julgados, processados, julgados, condenados (alguns sem provas) e presos.
Os demais corruptos das outras agremiações continuam soltos. E vejam quanta ironia: enquanto Dilma perde o mandato por ter assinado 3 decretos e ter pago os bancos públicos na operação do Plano Safra, apelidado de “pedaladas fiscais”, o xerife plenipotenciário, “o juiz” Moro, não consegue achar nem o endereço da esposa do Eduardo Cunha para chamá-la á depor, em que pese, as provas robustas dos crimes praticados pela família Cunha.
Uma coisa que me espanta e me chama atenção nesse problema é que os “nossos corruptos” não ostentam riquezas, não possuem contas secretas em paraísos fiscais, imóveis suntuosos no Brasil e no exterior, aviões, iates, etc. Se tivessem já teriam descoberto. Onde é que os companheiros estão guardando tanto dinheiro?

3º - A política de alianças do nosso partido foi um desastre. Nesse aspecto o PT do Acre, dos tempos heroicos, foi profético. Diz um militante em entrevista ao jornal Gazeta do Acre em 24/11/1981, a respeito do PT se coligar para as primeiras eleições diretas para governador em 1982. Perguntado se o partido podia se coligar com o PMDB e se este partido era diferente do PDS, a resposta foi a seguinte: “tanto faz o cão como a mãe dele e completou: a coligação com o PMDB seria alimentar a cobra que vai nos morder.” (Tese de Mestrado do autor – O PT No Acre: a construção de uma terceira via. Pág.82). Todos que tem alguma leitura política sabem que o PMDB só prestava e tinha alguma densidade, quando abrigava, no seu generoso guarda-chuva, os comunistas, socialistas e outros democratas, que faziam a dupla militância na legenda. Quando os partidos foram todos regularizados, o PMDB virou esse partido “ônibus” onde cabe todo mundo, de políticos sérios como Requião a bandidos como o Cunha. E passados 35 anos, não é que a profecia do militante do PT se concretizou! A cobra, que alimentamos por tanto tempo, finalmente deu o seu bote peçonhento e nos mordeu de forma letal.
Quando o PT afirma a sua institucionalidade, o seu 5º Encontro Nacional, em dezembro de 1987, define a sua política sobre o “acúmulo de forças” e a sua “política de alianças”. Dizia o documento: “O PT não se funde, nem se confunde (...) Aliança não é uma questão de princípios para o PT, mas o PT só faz alianças com princípios” (Tese de Mestrado do autor – O PT No Acre: a construção de uma terceira via. Pág.121). Foi assim na formação da Frente Brasil Popular – FBP, composta pelas forças de esquerda: PT, PC do B, PSB, que levou Lula ao 2º turno contra Collor em 1989, e nesse 2º turno recebeu o reforço do PCB, PDT e PV. Aqui no Acre foi construída uma frente nos mesmos moldes em 1990, que levou Jorge Viana ao 2º turno contra Edmundo Pinto. A Frente Popular do Acre – FPA era composta pelas agremiações do PT, PC do B, PDT, PSB, PV e PPS. Eram coligações que aglutinavam apenas 6 partidos do campo da esquerda. Na sequência a coisa degringolou. Eis a coligação que em 2014, elegeu Dilma com Temer de vice: COLIGAÇÃO COM A FORÇA DO POVO (PT / PMDB / PSD / PP / PR / PROS / PDT / PC do B /PRB). Aqui no Acre a coligação que reelegeu Tião Viana a Coligação: Frente Popular do Acre (PDT / PRB / PT / PSL / PTN / PSDC / PHS / PSB / PRP / PEN / PPL / PC do B / PROS / PTB). São 14 partidos, incluindo, o PT e agora nessas eleições para Prefeitura de Rio Branco, a Frente Popular de Rio Branco é maior ainda. São 15 partidos a saber: PT/ PC do B /PSOL / PV/ PDT/ PMB/ PPL/ PRP/ PSB/ PSDC/ PRB /PROS / PTN / PSL / PHS.
O que nos levou a dilatar tanto os nossos “princípios”? A mim me parece que foram duas coisas: abrimos mão do nosso programa partidário em detrimento da propaganda e do marketing político e nossas alianças foram estabelecidas em função do tempo na televisão e no rádio. Os marqueteiros substituíram, em parte, a militância. E a nossa militância que era, historicamente, abnegada foi ficando mercenária. Tinha que ter “um ventinho nas co$ta$” para empunhar as nossas bandeiras e fazer o corpo a corpo no dia das eleições. Ninguém me contou, eu vi. Por outro a governança tornou-se complicada. Como acomodar tantos partidos na equipe de governo e na máquina pública?
Nesse processo de alianças, entre as quais, aceitamos até o Maluf, que sempre foi um crítico ferrenho do nosso projeto onde ele dizia: “Se você tiver uma fazenda e, na hora da colheita, tiver que optar entre um administrador petista e uma nuvem de gafanhotos, fique com os gafanhotos” (Tese de Mestrado do autor – O PT No Acre: a construção de uma terceira via. Pág.136). As administrações do PT, local e nacional, desmentiram Maluf. Mas o certo foi que o nosso partido desconsiderou a filosofia popular quando diz: “quem se junta aos porcos farelos come” e também não leu Maquiavel e o seu obrigatório “O Príncipe”, que no seu capítulo VIII ensina: “As armas de outrem, ou te caem de cima, ou te pesam ou te constrangem.”

4º - Também nos faltou uma leitura de Maquiavel para escolher melhor os assessores do 1º escalão do governo. O Príncipe pontifica: “Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros. (...) É a primeira conjectura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam.” (Cap.XXII)
Aqui eu abro um espaço para relembrar outro fato histórico. Na crise de 54, Vargas na véspera do suicídio, reuniu seu Ministério para discutir alternativas para, pelo menos, abrandar a crise. Não teve sucesso a reunião. Então Getúlio encerrou a reunião dizendo: já que os meus Ministros não decidem, está encerrada a reunião eu vou dormir. E deu uma ordem final: mantenham a ordem pública. Quando já se dirigia para os seus aposentos, comentou com sua filha, Alzira Vargas, esse meu Ministério, a metade não é capaz de nada, a outra metade é capaz de tudo.”
Assim foi o Ministério da Dilma nesse 2º mandato. Seus Ministros mais próximos e do PT, Cardozo (Justiça). Bernardo (Comunicação), Mercadante (Casa Civil e Educação) não foram capazes de nada. A outra metade do PMDB, Lobão, Braga, Garibaldi Alves, Henrique Alves, Elizeu Padilha, Moreira Franco, Gedel Vieira, foram capazes de tudo. Até mesmo de conspirar e trair. E nem Cristo escapou da traição.
Ademais o nosso “Republicanismo” foi, no mínimo, ingênuo. Tanto Lula como Dilma fizeram indicações desastrosas para Ministros do Supremo, para a PGR, para a Polícia Federal e outros órgãos estratégicos. Muitas dessas autoridades não se comportaram republicanamente, pelo contrário, bombearam água para o moinho do golpe.

5º - Eu não tenho dúvidas, que perdemos o governo pelo “conjunto da obra”. Nesses 13 anos de governos do PT, o pobre entrou no orçamento pela 1ª vez. Uma pequena nesga é bem verdade, mas, que possibilitou tirarmos mais de 30 milhões de pessoas da miséria absoluta e incorporarmos mais 40 milhões ao mercado de consumo. Saímos do mapa da fome da ONU, aumentamos nossas reservas cambiais e cometemos as extravagâncias de levar luz para todos, médicos aos grotões do Brasil, criamos novas Universidades e Escolas Técnicas e levamos pessoas humildes a frequentá-las. O povo gostou e começou a esnobar querendo até viajar de avião. Foi demais para a nossa elite plutocrática compartilhar aeroportos e ver o pessoal da senzala começar a usufruir das benesses do capitalismo.

A nossa grande falha foi não ter transformado consumidores em cidadãos. O Frei Beto faz uma análise precisa dessa questão. Muitos tijolos na cidade “Brasil” e poucos na cidadania. E quando acontece um novo golpe, a exemplo do 1º golpe de 1889, que cria a República, que foi também marcado pela traição, “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada.” (Aristides Lobo em carta a um amigo). Nesse agora, da mesma forma. O povo, tampouco, conhece o significado das tais “pedaladas fiscais” e dos “decretos de suplementação” que serviram de pretextos para se incriminar e cassar uma presidenta eleita com 54,5 milhões de votos.

Esses golpe de 31 de agosto de 2016,  nos remete para a necessidade de investirmos na capacitação política da militância, que foi tão negligenciada pelo PT. De construirmos CIDADANIA, fazer “o povo pensar” como disse o poeta Castro Alves no seu poema “O Livro e a América.” Temos que refutar, com veemência, o conselho da classe dominante, que diz: “Não pense. Se pensar não fale. Se falar não escreva. Se escrever não publique. Se publicar esconda.” Temos que pensar o Brasil e repensar o nosso partido. E só com estudos, informações, debates e compartilhamentos de idéias, se faz isso. É isso que leva a formação de uma nova HEGEMONIA, como ensina Gramsci.

Nessa hora difícil é que o partido precisa de seus quadros e de sua militância. Temos que seguir no partido e prepará-lo para esses novos tempos de guerra. A luta vai ser no corpo a corpo e de baioneta escalada. De minha parte já desembanhei a minha e vou ocupar a minha trincheira na área que posso travar melhor o combate, que é a de formação política. Estou trabalhando num curso de “Política para principiantes” e vou disponibilizá-lo no face para capacitação virtual e também presencial. À luta companheiros!

*Marcos Inácio Fernandes é professor aposentado e militante do PT.

(1) Na minha tese de Mestrado sobre o “PT No Acre: a construção de uma terceira via” narrei a trajetória do partido da sua fundação até chegar a Prefeitura de Rio Branco em 1992. Utilizei o símbolo da estrela do PT (o pentagrama de 5 pontas) para intitular os capítulos do trabalho. Cap. I - Fulge um astro na nossa bandeira; Cap. II – O despontar da estrela; Cap. III – A estrela bruxoleia; Cap.IV – A estrela sobe e fulgura.
Daí o título desse artigo “O declínio da Estrela”


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CARTA ABERTA À CIDADÃ KATIA ABREU





CARTA ABERTA À CIDADÃ KATIA ABREU

Excelentíssima senhora Katia Regina Abreu
M.D. Senadora do PMDB pelo Estado do Tocantins.
­­Brasília – DF.

Dirijo-me, respeitosamente, a vossa excelência para pedir desculpas e fazer um agradecimento e um reconhecimento público. O faço respeitosamente, (destaco em negrito), porque um certo Senador, que se comportou indevidamente com vossa excelência levou um copo de vinho na cara. Naquele incidente, a senhora como mulher, esposa e mãe, não contemporizou. Não deixou barato a gracinha com a insinuação maldosa a seu respeito. A senhora mostrou que não é de levar desaforo prá casa e confirmou o ditado: “respeito é bom e conserva os dentes” e também mantém a roupa limpa.  A senhora se dá ao respeito. Vibrei com a sua atitude naquela ocasião, mesmo porque, não nutro nenhuma simpatia, como ser humano e político, pelo seu agressor.

Dito isso, quero me apresentar. Sou Marcos Inácio Fernandes, natalense de nascimento e acreano por opção. Sou da geração pós- guerra. Não venho de tão longe, como dizia o Brizola, mas já vivi e vivenciei três golpes. Contra Vargas, em 54, contra Jango em 64, e o atual do ano em curso, consumado agora nesse 31 de agosto de 2016. Sou pai de um casal de filhos e avô. Tenho um neto de 4 anos. Como sou pouco religioso, sempre abençoei meus filhos com um “TENHA DIGNIDADE”. Muita gente da família estranhava essa benção tão pouco usual. Eu o fazia e, faço ainda, porque meu pai dizia que: até prá pedir esmolas você tem que ter dignidade. Hoje acrescento na benção do meu neto, além da dignidade, saúde, felicidade e vergonha. No princípio ele dizia “não quero vergonha não vovô” e eu replicava, mas vergonha é bom, Arthur e tentava convencer uma criança de 4 anos dessa virtude. Agora ele já está repetindo a benção comigo sem questionar.

Sou professor universitário aposentado pela UFAC, com a qualificação de Mestrado do Curso de Ciências Sociais. Meu bacharelado foi em Sociologia, que cursei quando a gente tinha um AI-5 particular, o Decreto-Lei nº 477, baixado em 1969, por Costa e Silva. Em virtude disso levei 6 anos para terminar o meu bacharelado. Fui incurso na Lei de Segurança Nacional e amarguei prisão e apenas 1 sessão de tortura física. As psicológicas e morais foram inúmeras. Por isso entendo todo o sofrimento por que passou e passa Dilma Rousseff. Uma mulher torturada, na pele, pela ditadura e torturada, na alma, pela democracia, que ela ajudou a construir. Quanto infortúnio e ironia.

Sempre militei na esquerda e cultivei o ideário socialista. Na juventude, militei no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário – PCBR, do patriota Apolônio de Carvalho; na idade madura, no Partido Comunista Brasileiro – PCB (O Partidão), que ajudei a organizar no Acre, nos anos 80, ainda na semi - clandestinidade. E aqui faço um parênteses: o destino poupou Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Giocondo Dias, Salomão Malina, Dr.Vulpiano e outros históricos comunistas, que já partiram, de ver o glorioso Partidão, matriz de todas as agremiações de esquerda, transformado no PPS - Partido Popular Socialista, que nem é popular, muito menos, socialista e agora apoiando um golpe. Pois bem, atingindo a 3ª idade, entrei para o Partido dos Trabalhadores – PT, onde estou desde 1992. Parece que o “declínio” da minha trajetória político/partidária confunde-se e se assemelha com minha trajetória existencial. Uma relativa regressão.

Além do magistério superior também atuei na Extensão Rural. Trabalhei na EMATER-AC por muitos anos onde exerci, além das atividades técnicas, atividades sindicais e de direção. Exerci cargos de confiança no 1º escalão nos governos do seu colega, Senador Jorge Viana, que deu status de secretaria ao serviço e transformou a extensão rural em extensão agroflorestal. Seus dois mandatos de governo, incorporou os segmentos sociais de seringueiros, ribeirinhos e indígenas como beneficiários das políticas públicas para o meio rural/florestal.

Espero que, esse breve relato pessoal, não seja considerado uma forma de jactância. Ele se presta, tão somente, para dizer, que a minha visão de mundo e da política era diametralmente oposta a de vossa excelência. Tanto é verdade, que a vossa nomeação com a do Joaquim Levy para compor o Ministério da Dilma mereceu, de minha parte e de muitos companheiros, muitas críticas e torci o nariz para elas. Entre outras críticas, dizíamos que elas simbolizavam uma concessão indevida ao agronegócio, ao latifúndio e ao mercado. E, em parte, as nossas restrições tinham pertinência. Mesmo porque a POLÍTICA também é feita de símbolos e simbologias.

Agora nessa quadra sombria da vida nacional onde a crise faz aflorar todo tipo de patologias sociais, políticas e econômicas eu ouso dizer que a econômica é a menos danosa. A crise maior é a de VALORES. Valores morais, éticos, de princípios, de compostura, de prudência e parcimônia, entre outras.
E o mau exemplo vem de cima. Das maiores autoridades e das instituições sociais e políticas. Banaliza-se e joga-se no lixo conquistas civilizatórias e humanitárias seculares. Contemporiza-se com o que há de mais torpe na condição humana: CONSPIRAÇÃO, TRAIÇÃO, DELAÇAO (agora alçada a prática investigatória e ainda premiada), TORTURAS, CONDENAÇÃO SEM PROVAS, DESLEALDADE, PRESUNÇÃO DE CULPA (substituindo a presunção de inocência), ASSASSINATO DE REPUTAÇÕES, e INJUSTIÇAS. Muitas injustiças!!

Nesse processo do impeachment, que redundou no GOLPE de 31 de agosto, tive a pachorra de acompanhar pela TV Senado. Estou com tempo, o coração só tem um stent numa artéria, e o meu estômago  é de avestruz. Mesmo assim, tive ânsias de vômito muitas vezes, com tantas extravagâncias que aconteceram. O discurso melífluo e pulsilânime do seu colega Cristovam Buarque, e as histrionices do Magno Malta foram o de menos. Os senhores “juízes/senadores” nem tiveram uma postura de simulação. Insistiram, ad nauseam, na aparência em vez da essência; na forma no lugar do conteúdo; nas versões se sobrepondo aos fatos. Getúlio Vargas já dizia que, na política, as versões são mais importantes que os fatos. Acontece que os Senadores estavam também investidos de JUIZES e, como tal, não se comportaram. Desmoralizaram a Instituição do Tribunal do Jure.

Dessa farsa e desse embuste e, em meio a tantas calhordices, emerge a figura de vossa excelência, que a mim, pelo menos, deu lições de caráter e compostura. Foi leal, teve gratidão, foi solidária, combativa e não tergiversou. Ajudou a construir o único gol dessa goleada de 61x20, uma derrota, superlativamente, maior e mais trágica e mais dolorosa do que os 7x1 para Alemanha na Copa, que diziam que não ia ter. O gol solitário da preservação dos direitos políticos da cidadã Dilma Rousseff, criminalizada perante a Constituição e indultada politicamente numa mesma sessão. Agora são dois fantasmas a assombrarem a elite plutocrática. Lula e Dilma.

Finalizo contando uma história do folclore político acreano. Nas eleições para Prefeitura de Rio Branco de 1985, O PCB lançou candidatura própria encabeçada pelos saudoso professor da UFAC, Pedro Vicente e pelo funcionário estadual Estanislau Siqueira, um homem simples do povo. Na campanha um eleitor chegou para o Siqueira e quis fazer graça e tripudiar com o velho militante comunista, na época, já septuagenário. Deu-se o seguinte diálogo:
- eleitor: Siqueira você não vai ter voto que encha uma cuia de tacacá. Se tiver 20 votos é muito.
- Siqueira: É voto demais companheiro. É muito voto!! Significa que ainda tem 20 homens de vergonha em Rio Branco.

Eu digo o mesmo do companheiro Siqueira. Que bom que ainda tem 20 Senadoras e Senadores de vergonha na Câmara Alta do Congresso. A senhora e mais os seus 19 colegas. Os “20 de Esparta”, que lutaram até o fim. A história há de lhes fazer justiça a exemplo dos outros 300 guerreiros que, também num final de agosto de 480 a.C, nas Termópilas, combateram o império Persa de Xerxes, posteriormente, derrotado.

No diário da judia, Anne Frank, que foi encontrado após seu assassinato, em março de 1945, no campo de concentração de Belsen, na Baixa Saxônia alemã, terminava assim:
“eu sei como é difícil se acreditar em alguma coisa, quando há tanta gente ruim; mas acho que o mundo está passando por uma fase. Passará; daqui há séculos, talvez, mas passará. Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana. “

Gratidão, Senadora Katia Abreu. Suas palavras, gestos e atitudes, renovaram minhas crenças na bondade humana. Quando for a Brasília gostaria de visitar seu gabinete para lhe cumprimentar pessoalmente.

Respeitosamente, receba meu abraço fraterno e minhas saudações democráticas.

Marcos Inácio Fernandes – um cidadão golpeado.

Rio Branco (AC), 6 de setembro de 2016
(Véspera da data pátria no 194º aniversário nossa emancipação política)