sábado, 11 de abril de 2020





BREVES ANOTAÇÕES DA QUARENTENA

Por Marcos Inácio Fernandes*

“Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa tudo sempre passará...”
(Como Uma Onda – Lulu Santos & Nelson Mota)

Nessa quarentena, que o CORONA-19 está nos impondo, venho cumprindo, rigorosamente, o meu isolamento social por ser do grupo de risco (idade e hipertenso). Tenho ouvido muita música, atualizado minhas leituras, vendo filmes e séries da Netflix e arrumando minhas coisas do escritório. Tenho tentado me preservar e manter a “minha saúde emocional” conforme fui alertado por uma psicóloga, num desses vídeos que compartilham nas redes. Ela diz que devemos nos desligar um pouco do noticiário da TV, prá que não entremos em pânico com tantas notícias tristes e desoladoras. Diz também que devemos evitar os jornais televisivos quando for dormir e ao amanhecer. Considero que faz sentido.
Com essa percepção, só tenho compartilhado nos grupos do PT e para os familiares e amigos da minha rede social da internet, textos de análises e coisas engraçadas, que a nossa capacidade criativa e de humor tem produzido com o tema do vírus e da quarentena. É impressionante a nossa capacidade de rir das nossas desgraças e das alheias, além das desgraças coletivas. São charges, memes, caricaturas, vídeos e muitas outras coisas engraçadas que nos ajudam a enfrentar esse confinamento com o astral elevado.
Como disse Zé Lezin da Paraíba: “não quero nem saber quem morreu porque não sou dono nem de funerária nem de cemitério”. Mas nessa época, onde as notícias sobre mortes são recorrentes e parecem banais, elas não deixam de nos impactar, principalmente, quando se trata de pessoas de nosso relacionamento, que nem sabíamos que estavam doentes. Nesses últimos dias perdi quatro amigos e nem pude fazer minha despedida deles e prestar minhas condolências a família e amigos comuns. Um, foi o nosso querido Piola, companheiro do PT e os outros três eram amigos da EMATER, com os quais trabalhei muitos anos, Rizoleta, Maria Santos e Jozelino Batista. Eles não faram vítimas do virus mortal e nem farão parte dessa sinistra estatística dos óbitos em decorrência da epidemia. Eles passam a integrar o rol dos amigos que partiram antes do combinado deixando saudades em nossos corações. Que descansem em paz.
Passo agora a elencar as coisas que me chamam atenção nessa crise sanitária.
1 – A pandemia provocou um colapso em todo o mundo capitalista. Derrubou as bolsas, fechou fronteiras e em muitas cidades impôs o “lockdown” (Bloqueio total das atividades econômicas), apenas funcionando as atividades essenciais. Ela desmoralizou as políticas neoliberais e seus mantras do “Estado mínimo”, ajustes fiscais e supremacia dos mercados como regulador da vida social. Agora se recorre as instituições estatais (Executivo e Congresso) e se decreta “Estado de Calamidade Pública” com as respectivas ações emergenciais para debelar a crise.
2 – Aqui no Brasil, a crise sanitária se somou a uma crise econômica e social, que já estava em curso. A pandemia nos pegou de calças curtas com o SUS desidratado, programa do “Mais Médicos”, praticamente, desativado e problemas socioeconômicos de toda ordem, que se torna supérfluo listar. Daí o pavor das autoridades sanitárias de que por aqui se repita a experiência da Itália e Espanha, com o colapso da rede hospitalar, que leva os médicos a um desgaste físico  e emocional para decidir quem deve viver ou morrer.
3 – Daí, me parece ser o cúmulo da ironia, quando vejo o Ministro, Luíz Henrique Mandetta, nas suas coletivas de imprensa, vestido com o jaleco do SUS. Logo ele e todo os “Democratas”do DEM, que deram 25 votos favoráveis a chamada “PEC da Morte” (PEC 241 /EC 95), que congela recursos para saúde e educação por 20 anos. Caso inédito no mundo, mesmo entre os neoliberais. Aqui considero importante avivar a memória das pessoas daquela votação na Câmara Federal e no Senado.
Na Câmara a EC foi aprovada por 366 votos a favor e 111 contra, conforme quadro abaixo:
PARTIDOS
SIM
NÃO
ABST.
TOTAL
BANCADA/AC
PT
-
54
01
55
Angelim, Léo de Brito.  Sibá estava licenciado para secretariar a SEDENZ.
PSOL
-
06
-
06

REDE
-
03
-
03

PC do B
-
10
-
10

DEM
25
-
-
25
Inclusive o Mandetta.
PDT
06
11
-
17

PHS
07
--
-
07

PEN
02
01
-
03

PMB
01
01
-
02

PMDB/MDB
64
-
-
64
Flaviano Melo e Jéssica Sales
PP
41
02
-
43
Partido do Governador.
PPS
04
03
-
07

PR
38
01
01
40
O “Não” foi de Clarisse Garotinho (PR/RJ)
PRB
20
-
-
20
Inclusive Alan Rick
PROS
04
03
-
07

PSB
22
10
-
32
César Messias votou “NÃO”
PSC
06
-
-
06

PSD
34
01
-
35

PSDB
47
-
-
47
Inclusive o Major Rocha
PSL
02
-
02


PTB
15
-
-
15

PT do B
02
01
-
03

PTN
11
-
-
11

PV
06
-
-
06

SOLIDARIEDADE
12
01
-
13
O ‘não’ foi do Major Olímpio (SD/SP)
Total
366
111
04
481


No Senado Federal, o placar foi de 53 “SIM” e 16 “NÃO” em votação de 2º turno e a Emenda da morte foi aprovada com os votos favoráveis dos Senadores Gladson Cameli (PP/AC), hoje Governador do Estado, e Sérgio Petecão (PSD/AC), enquanto que Jorge Viana (PT/AC), votou “Não”. Do quadro acima pode-se, tranquilamente, rebater a afirmação do senso comum que diz: “todos os partidos e os políticos são iguais”, que é tudo “farinha do mesmo saco”. Os números acima expostos e muitos outras votações e fatos políticos desmentem a assertiva popular. Com a Emenda aprovada a Saúde deixou de receber, desde então, recursos da ordem de cerca 20 bilhões/ano, que vai fazer muita falta nesse momento de crise sanitária.
Relembre-se, ademais, que quando em 2007, o Presidente Lula quis prorrogar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira),diminuindo a alíquota do imposto e destinando-o, exclusivamente, para a saúde, sofreu um impiedoso combate do empresariado brasileiro capitaneado pela FIESP de Paulo Skaf e o imposto, que foi aprovado na Câmara, não passou no Senado, por 53 votos contrários e 16 a favor e foi rejeitado. Naquela votação, os Senadores do PT/AC, Tião Viana e Sibá Machado, votaram pela prorrogação da CPMF, enquanto que Geraldinho Mesquita, que ganhou um mandato nas nossas costas, votou contra. Lembrando ainda que a CPMF foi instituída por FHC em 1977, e que Bolsonaro, então Deputado, considerava uma “desgraça maldita” e votou contra a prorrogação. Com isso a saúde perdeu um aporte de recurso de cerca de 40 bilhões de reais/ano.
4 – Outra coisa que me impressiona e estarrece é como ainda tem gente que vai na onda do capitão/farmacêutico e coloca em risco suas vidas e a dos outros, quando não cumprem o isolamento social. Será que eles não veem na televisão o que se passa na Itália e no Equador?
5 – Também é deprimente constatar, que além de nos proteger do vírus também temos que nos proteger dos vermes humanos, que se aproveitam da pandemia para lucrar mais e enganar, com golpes diversos, os mais incautos e desinformados. A Polícia já identificou mais de 20 plataformas falsificadas da Caixa Econômica, para sacar os 600 reais do auxílio emergencial. Aqui quero louvara iniciativa do companheiro Sid Farney, que se propôs ajudar gratuitamente quem não sabe fazer no celular ou no computador o seu cadastro para receber o benefício. Estão cobrando 50 reais por esse serviço.
6 – Deplorável da mesma forma é o oportunismo de alguns que querem surfar na onda da pandemia e “fazer cortesia com o chapéu dos outros”. Alguns deles falam em usar o fundo eleitoral e partidário no combate a pandemia. Ao meu juízo não passa de uma proposta demagógica para “jogar para a platéia”. O governo ainda dispõe de reservas cambiais robustas, que os governos de Lula e Dilma deixaram. Em vez disso o Guedes e os burocratas do Banco Central estão torrando as nossas reservas para segurar o dólar. Também tem os juros da dívida, que abocanha quase 50% do orçamento. É se mirar no exemplo da Argentina, que declarou uma moratória e suspendeu o pagamento da dívida. Chegou a hora dos bancos e agiotas financeiros darem a sus cota de sacrifício. São os únicos que tem gordura ($$$$$) prá queimar.
7 – Nos cenários que se vislumbram para a pós-pandemia, economistas do FMI e de outras agências estão prevendo uma queda acentuada no PIB mundial e uma depressão econômica maior do que a dos anos 30 do século passado. Todos os analistas da geopolítica dizem que o  pior vem depois com a ressaca da pandemia. Com isso se configurando, talvez não haja clima para se cumprir a risca o calendário eleitoral de 2020.
8 – A pergunta que nos resta fazer e se o capitalismo vai sai mais forte dessa crise, como historicamente tem acontecido, ou se uma nova configuração de sociedade está se gestando? Como a história mostra, o capitalismo, só supera as suas crises através da guerra. Já está em curso uma guerra híbrida entre Estados Unidos e China, que pode ter desdobramentos bélicos.
9 - Depois dos escombros que essa crise deixar na economia mundial é bem provável que se recorra ao velho e bom Estado para se implantar algo semelhante ao New Deal,(Novo Trato) dos anos 30 e um equivalente Plano Marshall do pós-guerra. E nesse cenário todos os analistas são unânimes em considerar a China como o principal player no tabuleiro da geopolítica mundial.

Rio Branco (AC), 11 de abril (Sábado de Aleluia) de 2020.

*Marcos Inácio  Fernandes é professor aposentado e Secretario de Formação do DM/PT de Rio  Branco /Acre.

terça-feira, 31 de março de 2020

ACERVO DE CDs






Alguma duplicatas


Como primeira tarefa da quarentena acabei de limpar e catalogar meus CDs, por ordem alfabética e por gêneros musicais, inclusive os estrangeiros aos quais não dava muita importância. São 542 títulos e 1.465 CDs. Nesse trabalho identifiquei uns 50 CDs em duplicata. Eles estão disponíveis prá doação, trocas ou venda por pouco mais ou nada. Quem se habilitar entre em contato comigo. Tem muita coisa boa. Agora vou faze o mesmo trabalho nos LPs. (MIF)



terça-feira, 24 de março de 2020

O APOCALIPSE, O MANIFESTO E ASSIS VALENTE.


Os quatro cavaleiros do Apocalipse (Peste, guerra, fome e morte)


O APOCALIPSE, O MANIFESTO E ASSIS VALENTE

Por: Marcos Inácio Fernandes*

“Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.” (Apocalipse 21:4)

“Tudo que é sólido se desmancha no ar” (Manifesto do Partido Comunista de 1848 – Marx & Engels)

”Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar...” (Samba-choro de 1938, E o Mundo Não Se Acabou - Assis Valente)

O mundo vai se acabar, mas, não é agora. Isso se dará, segundo os astrofísicos, daqui a mais ou menos 5 bilhões de anos. Por essa época a nossa estrela Anã Amarela, o sol, terá esgotado o seu estoque de hidrogênio e se expandirá engolindo os planetas mais próximos de sua órbita, Mercúrio, Vênus e a Terra. Não nos preocupemos com isso por enquanto.
Entretanto, a vida na terra, pode ser extinta bem muito antes que o sol nos engula na sua bola de fogo. O extermínio da vida pode se dá através de uma outra colisão com a Terra de um grande meteoro, como aconteceu com o que dizimou os Dinossauros há 60 milhões de anos. O asteroide, de 15 km de diâmetro, com o impacto, dispendeu uma energia equivalente a 10 bilhões de bombas atômicas de Hiroshima.

Por sua vez, se escaparmos de outro meteoro (há previsões de outros choques) A vida pode ser extinta pela ação de um agente biológico - o homem - com seus vírus, seus vermes e suas bombas atômicas e nucleares... E suas políticas.

Falando em política, nesses dias de isolamento social, tenho feito algumas releituras dos clássicos da política e tenho achado muitas semelhanças e considero algumas analogias pertinentes entre o que diz o Manifesto do Partido Comunista de 1848 e o que acontece pela Europa e pelo resto do mundo com a crise do capitalismo em face do COVID-19, em 2020.

O Manifesto abre assim: “Um fantasma ronda a Europa. É o fantasma do comunismo.” Nos dias atuais é o fantasma do vírus. Ninguém vê a olho nu, mas faz um estrago mortal. Mata pessoas, faz despencar as Bolsas, fecha os comércios e indústrias, os templos do “Deus/Mercado”, os shoppings e as Catedrais Góticas e templos de outras seitas como os “Armazéns/Igrejas” dos Petencostais aqui no Brasil. Fronteiras fechadas, voos cancelados, confinamento social, colapso nas redes hospitalares e perspectivas de, em breve, colapso no abastecimento.

Quando Marx e Engels disseram no Manifesto “que tudo que é sólido se desmancha no ar”, referindo-se ao regime Feudal, poderia, da mesma forma, ser dito agora do regime Capitalista que vive uma de suas crises cíclicas. Tudo se desmoronando. Um caos!!

Pode ser que o Capitalismo sobreviva a mais uma de suas crises, entretanto, o mundo depois do vírus não será o mesmo. É bem provável que alguma coisa nova esteja nascendo depois dessa crise e que o calendário dos novos tempos tenha uma nova datação – AV e DV – (Antes e depois do vírus). Torço para que a profecia do Apocalipse de que a “antiga ordem esteja passando” leve consigo seus 4 cavaleiros e seus cavalos: peste, guerra, fome e morte.

No Brasil vivemos tempos apocalípticos e temos  4 cavaleiros do Apocalipse em postos chaves da República. Temos esses cavaleiros nas diversas séries do campeonato nacional. Na “Série A”, o núcleo duro do poder político temos o “00” (0 capitão), o “01” (o Senador Flávio das rachadinhas), o “02” (Deputado Federal Eduardo Bananinha) e o “03” (o vereador Carluxo); na “Série B”, as bestas ministeriais. Sérgio Moro, na Justiça e Segurança; Paulo (Posto Ipiranga) Guedes, na Economia; Ernesto Araújo, na Chancelaria; e o General Heleno, no GSI. Na “Série C”, os chefes dos outros poderes. Davi Alcolumbre, presidente do Senado; Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal; Dias Toffoli, presidente do STF; e Augusto Aras, Procurador Geral da República. Eles e suas instituições foram coniventes e cúmplices com o golpe de 2016 e são pusilânimes com as barbaridades que o capitão tem feito, antes, durante e depois da posse como Presidente.

Na “Série D” nós temos as 4 bestas do Apocalípse, que fazem a cabeça do nosso povo mais humilde e desesperançado. São os “pastores caça-níqueis” Edir Maccêdo, Silas Malafaia, R.R. Soares e Valdemiro Santiago. São os mercenários da fé. Todos milionários, que abusam da fé e da vulnerabilidade econômica e cultural do nosso povo. Eles fazem de seus púlpitos de pregação tribunas políticas e todos apoiaram o capitão. Suas Igrejas viraram “currais eleitorais” no pleito de 2018.
Esses “pastores” estão indóceis porque tiveram que fechar suas igrejas nessa quarentena, entretanto, pregam virtualmente a necessidade de seus fiéis continuarem a pagar o “dízimo” em que pese a crise a que todos estamos submetidos e com perspectivas de se aguçar e se prolongar.

Estou apreensivo, mas sem pânico, com essa situação caótica que reúne uma crise econômica, que já estava desenhada, com a crise sanitária que nos pegou despreparado e com líderes políticos mais despreparados ainda. Agora o que mais me angustia e escandaliza são empresários e políticos que querem surfar nesse tsunami.

 Uns aumentando preços de produtos abusivamente, outros fazendo proselitismo político de suspender as eleições e usar o fundo partidário e eleitoral para aportar recursos para combater o vírus, como Aécio Neves e o representante do seu partido aqui no Estado. Salvo melhor juízo considero, no mínimo, precipitadas essas propostas. Por sua vez os que são responsáveis desde sempre, inicialmente com Collor, passando por FHC e seu PSDB, Temer e seu PMDB/MDB e Bolsonaro, sem partido, são os grandes responsáveis pela implementação das políticas neoliberais do Estado Mínimo com todas as suas consequências nefastas. Sucateamento dos serviços públicos, privatizações, ajustes fiscais, desindustrialização e precarização das relações do trabalho, entre outras.

Agora com COVID-19 e o VIRUS-17, o velho e bom ESTADO com o SUS, alguns Centros de Pesquisa nas Universidades, as reservas cambiais que o PT deixou, poderão minimizar a pandemia por aqui. Se tem uma coisa positiva desse vírus é que ele desmoralizou o sistema capitalista e está lhe impondo lições dolorosas que, infelizmente, respingarão em milhares de seres humanos por onde passar sem escolher classe social. Talvez por isso se descubra logo uma vacina e remédios para combate-lo. Será que com a dor aprenderemos a lição?

O mais é cumprir o isolamento social e tomar os demais cuidados para que não se repita por aqui situação idêntica a da Itália. O nosso povo pela sua criatividade e senso de humor (que ri até das tragédias) e pelas crises e vicissitudes históricas que tem passado está mais apto a enfrentar e superar mais uma crise.

De minha parte já tenho rido muito das piadas, memes, charges, que fazem sobre essa pandemia e a quarentena que ela nos impôs. Vou continuar no isolamento social lendo, relendo e ouvindo uns sambas antigos dos meus CDs e LPs. Com certeza o mundo não se acabará agora, como não se acabou em 1938, como Assis Valente relata no seu samba.
Sigamos.

Rio Branco (AC), 24 de março de 2020

*Marcos Inácio Fernandes, 72 anos (do grupo de risco) é professor aposentado e Secretário de Formação do PT de Rio Branco.


segunda-feira, 2 de março de 2020

AS ÁGUAS DE MARÇO




As Águas de Março


Por: Marcos Inácio Fernandes.

“Todas as artes produziram maravilhas, apenas a arte de governar só produziu monstros.”  Saint-Just (1767-1794)

Embora a frase comporte controvérsias, pois “a arte de governar” também produziu maravilhas, com bons exemplos no mundo, no Brasil e no Estado, ela se encaixa, a perfeição, para classificar o (des)governo Bolsonaro.

Um governo que faz constantemente a apologia da tortura, da violência, da ditadura e da mentira e agride, um dia sim e outro também, a Constituição as instituições, a imprensa e a liturgia do cargo que ocupa é de uma monstruosidade que escandaliza, até mesmo, as nossas elites, a plutocracia, que viabilizaram sua ascenção a presidência da República.

Nesse primeiro ano de (des)governo, o capitão coleciona dezenas de motivos jurídicos, por falta de decoro, que ensejariam abertura de processo de impeachment. Da mesma forma, coleciona um estrondoso fracasso na política econômica e social pois só tem dois projetos para o Brasil – CORTAR e VENDER!! Como ele próprio verbalizou: veio para DESCONSTRUIR. Está tendo êxito nesse sentido.

Ademais as “âncoras” de seu governo que seriam o Moro, da Justiça e Segurança, e o Guedes, da Fazenda/Economia se revelaram uma decepção. As âncoras são de isopor. O primeiro se transformou em “jagunço de milícia” (na expressão do Deputado Eduardo Braga) e o segundo, o ministro “tchutchuca” (segundo o Deputado Zeca Dirceu). Pode-se dizer do Ministro da Economia que é o “Ministro 5 reais” (Dólar de 5, gasolina de 5, e 100 gramas de carne, com osso, 5 reais).

Para a “tempestade perfeita”, faltando apenas o povo nas ruas para demonstrar sua insatisfação com esse (des)governo. Então as condições jurídicas e políticas estariam dadas para o impedimento do Presidente que, a cada dia, fica mais isolado e vai ficando cristalina sua inaptidão para exercer o mandato que o povo lhe outorgou.

Agora uma coisa que fique claro. O capitão não enganou ninguém. Até mesmo o mundo mineral (como diz o Mino Carta), sabia do seu histórico, como militar, como parlamentar e como cidadão. O seu desapreço pela democracia e, por outros valores humanitários, ele sempre verbalizou com a virulência que lhe é peculiar. De uma coisa não se pode acusar o capitão. De INCOERÊNCIA. O que ele falou está tentando fazer e vive a soltar “balões de ensaio” e as Instituições vão contemporizando, desde sempre, como agora no caso da convocação conclamando o povo para se manifestarem contra o Congresso e o Supremo e em sua defesa.

Apesar da tibieza das notas do Congresso e do Supremo, a sociedade civil reagiu com firmeza, inclusive o Ministro decano do STF, Celso de Melo. Ademais os “barões da mídia” reagem em editoriais da Folha, Globo e Estadão e liberaram suas penas amestradas (Merval Pereira, Miriam Leitão, Monica Bergamo, Vera Magalhães, Eliane Castanhede, entre outros) a exporem as vísceras do (des)governo do capitão. Talvez seja um pouco tarde, mas não percamos a esperança.

Como se dizia no Nordeste. “Eles que pariram Mateus que o embale” E que o castigue, digo eu. Considero que a direita da mídia e da economia/finanças tem condições sozinhas de defenestrar o capitão do cargo. Ele já demonstrou que não resiste a 2 Jornais Nacionais e alguns domingos seguidos no Fantástico e alguma capas da Veja e da “Quanto E” (Isto É). Agora as esquerdas nas ruas, mobilizando os trabalhadores, seria funcional prá eles.

Digo isso prá dizer, que compartilho do sentimento da Socialista Morena, Cynara Menezes, que se diz constrangida de participar de uma frente ampla para estar junta com quem viabilizou o golpe contra Dilma e viabilizaram a eleição do capitão. Realmente não tem nada mais constrangedor do que um aliado que por acaso está do nosso lado e por motivos diferentes dos nossos.

Por mim, que tenho uma situação de professor universitário aposentado (antes dessa Reforma), relativamente confortável. O capitão tiraria todo seu mandato prá gente contabilizar o estrago no final. O Brasil suportaria, que é grande e forte demais, minha dúvida é se a classe trabalhadora que enfrenta o desemprego e a uberização da economia, teria a mesma capacidade de resistência.

Daí que irei prá rua no dia 8 (ato das mulheres) no dia 12 (aniversário de 2 anos do assassinato da Mariele e Anderson) e dia 18 (manifestação pela educação e pelo emprego, puxado pelas centrais e UNE). No dia 15 acompanharei pela TV a “marcha da insensatez” dos que querem destruir as Instituições que são pilares da democracia.

As águas de março da política tendem a ser turbulentas a exemplo das torrenciais águas que inundam as grandes cidades nesse verão. Tomara que os versos do poeta brasileiro Tom Jobim, nos alente um pouco. Que as águas de março tragam “a promessa de vida em nossos corações”.

Rio Branco (AC), 02 de março de 2020.

*Marcos Inácio Fernandes, é professor aposentado e Secretário de Formação do DM/PT de Rio Branco




domingo, 23 de fevereiro de 2020

OS HUNOS VOLTAM ATACAR!





Os Hunos Voltam Atacar!

Por: Marcos Inácio Fernandes*

“A erva não volta a crescer onde pisa meu cavalo”. Átila (395 – 453 d.C)


Chamava-se Othar, o cavalo de Átila, rei dos Hunos. Dizia-se que por onde ele passava não nascia grama, tal a devastação que seu dono fazia com suas hostes bárbaras. O “flagelo de Deus”, como era conhecido, Átila era temido, até mesmo, pelo Império Romano. Era o mais selvagem e mais sanguinário dos povos bárbaros.

Quinze séculos depois, em terras tropicais, surge outro personagem que se assemelha ao rei dos Hunos. É o capitão Jair Bolsonaro e suas falanges bárbaras pós-moderna. Tudo definha e nada cresce por onde ele passa com sua cavalaria de Othar’s. Pisoteiam tudo. Desde a ética e a compostura, que o cargo exige, até as políticas sociais e a soberania nacional.

Uma das suas últimas investidas foi contra uma política pública, das mais generosas, do povo brasileiro -o serviço de Extensão Rural –
Fiquei sabendo do ataque através do meu amigo e confrade Hur Ben, agora em pleno carnaval. Transcrevo seu texto de indignação que reflete o sentimento de todos nós extensionistas. Diz ele:
Hoje foi extinto o DATER. O Decreto Nº 10.253 de 20 de fevereiro 2020, artigo 34º cria o Departamento de Desenvolvimento Comunitário, responsável pela Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural.
O DATER foi do MAPA e em 2003 passou para o MDA, onde ganhou espaço importante de política pública. Sem dúvida foi um exemplo de construção social de política pública que respondeu ao anseio dos agricultores e das organizações de ATER públicas e privadas. Entre suas maiores conquistas se destacam a PNATER, que virou lei em 2010, e os recursos diretos de ATER, chegaram próximos R$ 1,0 bilhão por ano. Em torno de 50% do que aplicam os governos estaduais.
 Representa o último ciclo virtuoso da política federal de ATER, antecedido pelos ciclos ABCAR e EMBRATER, e o ciclo negativo da década de 90. Um novo departamento - desenvolvimento comunitário - significa o início de um novo ciclo da Ater. Mas o que será este ciclo?
Os sinais não são animadores. Vejamos. Atualmente a PNATER está sendo reelaborada. A política construída ao longo de décadas com ampla participação dos segmentos envolvidos, passa por uma releitura acadêmica e tecnocrática. Vai perder sua dimensão democrática, uma de suas maiores virtudes, ao lado dos conceitos avançados e contemporâneos de desenvolvimento sustentável. Como ficará?
Outro sinal importante. Os recursos de ATER para 2020 são pífios. Não chegam a 1% dos recursos aplicados pelos governos estaduais. Em 2019 o DATER alocou recursos para o SENAR num projeto no semiárido o que sugere um modus operandi daqui pra frente.
 Então, o novo departamento pode ser a volta aos patamares da década de 90, quando o DATER era uma mera sala no MAPA sem recurso e sem política. O que significará isso? Menor oferta de serviços de Extensão Rural pra quem mais precisa. Justamente quem produz os alimentos da cesta básica dos brasileiros: os agricultores familiares.
Aprendi que o que é bom deve ser valorizado. Quem conhece e quem é atendido pela extensão rural sabe como esse serviço é bom, importante e necessário. Então? DATER, tiraram o teu nome! Porque?... Espero que não seja como aquele comercial do lançamento do barbeador com três lâminas. Lembram? A primeira faz tchun! e lá se foram os recursos de ATER. A segunda faz tchan! e lá se foi o DATER, e a terceira faz tchan tchan tchannnnn.... o que vai sobrar pra cortar? Veremos!
Pois é caro amigo Hur Ben, o que vai sobrar prá cortar? A grama já está seca e rala de tanto que está sendo pisoteada pelo capitão montado em Othar com suas milícias e suas falanges pentecostais. A grama de tão seca pode dá combustão para um incêndio de grandes proporções.
Considero que para se contrapor ao cavalo Othar e seu cavaleiro só os muitos cavalos de uma retroescavadeira e outras máquinas de igual porte.
Marcos Inácio Fernandes, é Secretário de Formação do DM/PT de Rio Branco.
Rio Branco (AC) 23 de fevereiro (domingo de carnaval) de 2020


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

FALTANDO PRESTES E SOBRANDO PILATOS!!!





Faltando Prestes e Sobrando Pilatos!!

Por: Marcos Inácio Fernandes*

“Ao envelhecer, parei de escutar o que as pessoas dizem. Agora só presto atenção ao que elas fazem.” Andrew Carnegie (1835-1919)

LUIS CARLOS PRESTES (1898-1990) - o “Cavaleiro da Esperança”-  está fazendo falta na política brasileira. O personagem da Coluna (1922/1924) que levou seu nome e da Intentona Comunista (1935), deixou um legado de atos e ações que atestam a sua retidão de caráter e seu compromisso inabalável com o seu partido, com o socialismo e com o Brasil.

Citarei apenas dois fatos históricos. Após o fracasso da Intentona Comunista de 35, Prestes e sua companheira Olga Benário Prestes foram presos em 1936, pela polícia de Filinto Muller, que havia sido expulso da Coluna Prestes. Após sofrer inomináveis torturas, Prestes foi condenado a prisão onde amargou uma solitária incomunicável por quase 10 anos. A situação de Prestes era tão aviltante, que no seu julgamento, seu advogado Sobral Pinto, recorreu ao Código de Proteção aos Animais em sua defesa. Essa prisão recente do Lula, de quase 600 dias, que tanto nos indigna, se comparada com a de Prestes, mas parece um pic-nic mais prolongado.

Prestes foi anistiado com a redemocratização de 1945 e foi eleito senador pelo Rio na Constituinte de 1946. Logo após cassaram os Constituintes comunistas e o registro do PCB.  Por décadas na clandestinidade e, com os sobressaltos que essa situação acarreta, continuou a comandar o partidão e participar da vida política do país. Morreu de velho aos 92 anos. Uma magnanimidade do destino.
A mesma sorte, porém, não teve a sua companheira Olga. Ela, mesmo grávida de uma brasileira (Anita Leocádia Prestes), foi deportada por Vargas, com a chancela do Supremo, e entregue aos nazistas alemãs em 1936. Morreu numa das câmeras de gás do campo de concentração de Bernburg em 1942, com apenas 34 anos.

Em 1945, o Estado Novo agonizava, mas muitos queriam a continuidade de Vargas na Presidência e uma “Constituinte com Getúlio”. Era o “movimento queremista”. Prestes e o partidão aderiram e apoiaram o “queremos Getúlio”. Muitos estranharam o apoio de Prestes a quem tinha sido o algoz de sua esposa. Quando foi questionado, até por companheiros do partido, a respeito, ele respondeu, mais ou menos, nesses termos: “Não posso me dá ao luxo, de como dirigente partidário, que os meu dramas pessoais e familiares interfiram nas minhas decisões políticas.”

Pois bem, fico agora a me lembrar de Prestes, quando vejo que após uma dolorosa derrota eleitoral em 2018, muitos companheiros e companheiras, com e sem pretextos, abandonam o partido. Alguns deles usufruíram, de cargos e mandatos por anos a fio, no bojo de nossas vitórias. Lembro de Prestes, quando vejo quadros partidários dando uma de Pôncios Pilatos, “lavando as mãos” preocupados com questões de higiene e apenas com seus problemas pessoais e particulares. Não atentam para a gravidade do momento que exige de todos os militantes uma ação política mais firme e consequente!

Isto posto e, se depender de minha vontade, o PT participará do processo eleitoral que se aproxima com candidaturas majoritárias próprias em todos os municípios do Acre, seja com candidatos competitivos, ou não. O importante é participar do processo, não se omitir e disputar hegemonia na sociedade. Defender o nosso legado e a nossa memória, além de denunciar e combater o fascismo que se alastra no país e fazer a defesa de nossa soberania.

Da luta não nos afastaremos. Miremo-nos nos revolucionários como Prestes e outros do nosso próprio partido.

*Marcos Inácio Fernandes (Marcão), é  Secretário de Formação do PT/ DM de Rio Branco.

Rio Branco (AC), 18 de fevereiro de 2020